Não me entendam mal, eu amo minhas “divas”. Amo bater o cabelo, amo me sentir a gata da buatchy, amo ficar gemendo por cima dos grunhidos delas. Pra mim, tudo começou com o “Girl Power” das Spice Girls, seguido do boom de sexualidade de Britney Spears e Christina Aguilera, numa época em que a Madonna estava mais zen, cuidando dos filhos e do espírito. Vieram as Pussycat Dolls, a Beyoncé começou sua carreira solo e a Shakira ficou loira para os Estados Unidos. Jennifer Lopez virou J-Lo e, antes das esquisitices, até a Lady Gaga investia no corpinho. Amo muito. Todas elas. Mas é por isso mesmo que vejo algo de podre nesse reino da libertinagem.
A história de amor entre divas da música e homens gays é antiga. É como se os grupos se unissem contra o inimigo comum (o homem), com a mesma dose de horror e fascínio por esse algoz. Mas se no início do século XX o tom era de lamento, as lutas por igualdade transformaram os hinos da dor em gritos de afirmação. Do Disco ao Pop, tanto as mulheres quanto os gays aprenderam a dar as cartas. Ou pelo menos, fingir.
Quando Madonna, Grace Jones, Nina Hagen e Cyndi Lauper surgiram, abalando as estruturas da música pop, a identificação com os gays foi imediata. A estética abusada, a liberação sexual, a ousadia… tudo espelhava uma nova imagem feminina, poderosa, conquistada depois de muito suor. Além do que, assim como o orgulho gay, era uma conquista frequentemente ameaçada pelo modelo dominante, e por isso mesmo, sempre precisando ser reforçada.
Isso é muito bonito, mas nossa sociedade de consumo engole tudo. E bastou descobrirem que “mocinha sexy” vendia, que qualquer ideologia genuína por trás disso caiu por terra. Cada vez mais maquiadas, coreografadas e produzidas, as novas divas são como bonecas numa linha de produção, feitas por e para um público masculino específico, numa alegoria triste da pior faceta do machismo: a mulher objeto.
Pole Dancing, lingeries da Victoria’s Secret, os mais altos saltos Louboutin e ventilador no cabelo. Será possível que as mulheres sejam vendidas dessa forma para os homens, sejam eles gays ou hétero? Sim, pois se essa imagem sexualizada talvez tenha um apelo óbvio para quem gostaria de transar com elas, só podemos imaginar que para quem teoricamente não tem esse interesse, o apelo seja outro. E não pode ser só uma vontade incontrolável de ser desejado (e consumido) pelo “bicho homem”.
Logicamente, ainda temos cantoras mais respeitáveis, que se aproximam mais do conceito original de diva. Amy Winehouse com sua tragédia, Adele e Alanis com as músicas de fossa, Céline e até Mariah cantando o amor com vozes poderosas.Outras artistas, como Britney, viveram infernos particulares muito bizarros para serem cantados, e não há mal nenhum numa dose gostosa de escapismo. Mas uma mulher segura, dona de sua sexualidade, uma verdadeira DIVA, não precisa ser vulgar.
Hoje em dia, uma das coisas mais irritantes desse cenário é a guerrinha entre os fãs para decidir qual diva é a melhor. Só que essa guerra só tem perdedores. Essa “coroa” tão disputada, no fim das contas, é um chapéu de bobo, que só reafirma o lugar do macho no trono de rei. Nesse picadeiro, as cenas ficam mais e mais grotescas, com uma senhora mostrando os peitos, uma palhaça que só anda de fantasia e até a Ke$ha, glamurizando a ressaca.
E nós, aplaudindo.



