Todo mundo sabe que o bom funcionamento do lar é de responsabilidade da “dona-de-casa”, né?! Onde a mulher tem a “oportunidade” de reinar absoluta. E não é segredo que as mulheres sabem quais utensílios são melhores para sua própria casa e que estes também são os melhores amigos da mulher, certo?
É de se compreender que muitos dos primeiros anúncios de aparelhos domésticos se utilizassem desse tipo de argumento naturalizante da atribuição dos “trabalhos do lar” à mulher. Afinal, foi a esse tipo de discurso sexista que as feministas dos anos 1960 se opuseram. No entanto, tal feito não é, e nem nunca deveria ter sido, aceitável.
Então, qual é o meu espanto ao ver na semana passada esta e outra peças de propaganda da marca Esmaltec, que não acha nada demais em mostrar não só o trabalho doméstico como um encargo melhor executado por mulheres, mas que também ridiculariza cenas em que um homem faz coisas “tipicamente” femininas.
Em que ano estamos mesmo? Como uma marca que afirma “evoluir com você” veicula uma mensagem dessas? As duas peças de propaganda dessa campanha se apoiam na suposição de que um homem/marido NUNCA seria responsável pelo fogão ou pela geladeira de sua casa. Ou é tudo paranóia minha?
Estaria eu sendo um chato? Vendo heteronormatividade onde não existe? Acredito que muitos podem achar que não tem nada demais nesses comerciais. E de fato não deve ser nada demais, caso você aceite como mandatória e universal a delegação de tarefas baseadas no sexo, sendo você o beneficiado marido/filho ou a “zelosa” esposa/mãe. No entanto, nada que é considerado adequado para um ou mais indivíduos deve ser imposto a outro.
Embora eu acredite que existam mulheres que sejam felizes, e talvez até tenham vocação em se dedicar exclusivamente a casa e à família. Para cada uma das poucas mulheres que encontrei nessa situação, encontrei outras dezenas descontentes, conformadas ou não, em aceitar tais atribuições. Afinal, “as coisas são assim”…
Então, por mais que talvez o anunciante esteja querendo se dirigir a essa figura mítica da mulher responsável pelos seus, que certamente ainda existe na população, os responsáveis pelo marketing da Esmaltec, assim como os agentes publicitários contratados para elaboração da campanha, não deveriam ignorar o papel naturalizante de preconceitos e ideologias que os produtos de suas comunicações exercem. Até porque quem paga o pato no final é a marca como um todo e não os indivíduos responsáveis por ela.
Mas o que mais me impressiona nesse caso é o não alarde de nenhum órgão feminista, de direitos humanos ou zelador da ética no meio publicitário (como o CONAR) terem denunciado ou combatido uma peça que em nada ajuda na real evolução da nossa sociedade.



