O valioso e histérico mercado de entretenimento americano foi construído em cima de sua própria expectativa. Figuras míticas como Michael Jackson e Madonna fomentaram essa grandiloquência que tem nos anos 80 seu ponto nevrálgico, para estabelecer o poder imagético e repercussivo da cultura pop norte-americana.
Não é à toa que os chamados grandes eventos se firmaram nesse paradigma, seja pela suntuosidade de uma noite do Oscar (Whoopi Goldberg descendo faceiramente do teto numa espécie de “balanço”), seja pela dancinha sensualizada de Britney Spears com uma cobra real no VMA ou até pelo helicóptero “salvando” Diana Ross no final de seu show do intervalo do SuperBowl… Eis a capacidade de impressionar.

Já que fomos “domesticados” a essa comoção, acaba que o nível de exigência aumenta na mesma proporção gradativa. Por isso que quando Beyoncé usa os valiosos 12 minutos da pausa bilionária do SuperBowl para uma apresentação apenas protocolar, a reação não poderia ser menos frustrante. O mesmo vale para a mediocridade, pelo menos artística, no noite do Oscar.
Cercada de expectativa pós-Madonna em 2012, Beyoncé (e marketing poderoso) se cercou de uma prerrogativa tarimbada, como o artista visual mais hypado do momento, Michael Langan, porém sucumbiu a sua própria própria redundância. O que já é muita coisa, mas não o que se espera de uma artista dessa dimensão. Ainda mais para quem dirige a carreira com a precisão de uma espécie (tão em desuso) de rainha do pop. Quem acompanhou suas apresentações na escalafobética despedida da Oprah, ou até mesmo no Billboard Awards, onde até foi homenageada, não acreditou no show irritantemente mediano e anti-climático que ela ofereceu no início de novembro. É preciso muita astúcia para manter o que se construiu e o que desvia disso vira mediocridade.

O Oscar também caiu nessa auto armadilha, mas aqui o oportunismo falou mais alto. Na busca desesperada por alcançar a audiência sem juízo de valor nem de sua puberdade, a direção se entregou a superficialidade dos números musicais (elenco “escondido” atrás de tapumes de led no horroroso número de “Os Miseráveis”, iluminação primária na homenagem à “Dreamgirls” e falta de posicionamento cênico para Norah Jones, em sua apresentação, são alguns dos erros mais gritantes, sem contar a abertura um tanto perdida e sem impacto) e a delicada opção por pautar seu ponto de repercussão (apenas) na figura de seu controverso apresentador.
Claro que os americanos ainda têm muito a nos embasbacar, só que a globalização estende a criatividade de espetacularizar (tanto que no, até então apagadinho, Brit Awards 2013 o uso inteligente do led em números pulsantes renderam audiência e ressonância histórica). Isso quer dizer que numa escala global, a cultura pop americana ainda precisa oxigenar a noção de referência. Crise criativa? Defasagem industrial? Não sei. Por enquanto, ainda nos resta a pretensão de Madonna e a (impressionante, como bem ilustrou o novo espetáculo do Cirque du Soleil) memória afetiva de Jackson.


