Há três semanas atrás estreou a terceira temporada de Game of Thrones, seriado baseado na saga literária de George R. R. Martin, e se você apenas assiste pela TV, pode correr atrás de uma cópia dos livros porque vale bastante a pena… Ainda que você já tenha visto a série.
Claro que os livros são diferentes da série – até agora cada temporada equivale a um livro. Mas o fundamental pra entender a riqueza do texto é saber que cada capítulo é escrito sob a perspectiva de um dos personagem. E impressiona como o autor é warg capaz de se colocar no lugar de criaturas tão distintas em interesses, faixas etárias, posições sociais, religiões etc. Fica difícil acabar não se identificando com um, torcendo por outro (isso depois de já ter odiado o mesmo personagem há uns capítulos atrás).
Mas esse não é um post para falar de como a perspectiva de uma só pessoa é limitada e sujeita a deturpações mas sim para enaltecer o autor. Martin, não eu. Sem spoilers. Continuar lendo →
“Como eu melhorei meu casamento após me recusar a lavar a louça.”
Todo mundo sabe que o bom funcionamento do lar é de responsabilidade da “dona-de-casa”, né?! Onde a mulher tem a “oportunidade” de reinar absoluta. E não é segredo que as mulheres sabem quais utensílios são melhores para sua própria casa e que estes também são os melhores amigos da mulher, certo?
É de se compreender que muitos dos primeiros anúncios de aparelhos domésticos se utilizassem desse tipo de argumento naturalizante da atribuição dos “trabalhos do lar” à mulher. Afinal, foi a esse tipo de discurso sexista que as feministas dos anos 1960 se opuseram. No entanto, tal feito não é, e nem nunca deveria ter sido, aceitável.
Então, qual é o meu espanto ao ver na semana passada esta e outra peças de propaganda da marca Esmaltec, que não acha nada demais em mostrar não só o trabalho doméstico como um encargo melhor executado por mulheres, mas que também ridiculariza cenas em que um homem faz coisas “tipicamente” femininas.
Em que ano estamos mesmo? Como uma marca que afirma “evoluir com você” veicula uma mensagem dessas? As duas peças de propaganda dessa campanha se apoiam na suposição de que um homem/marido NUNCA seria responsável pelo fogão ou pela geladeira de sua casa. Ou é tudo paranóia minha?
Estaria eu sendo um chato? Vendo heteronormatividade onde não existe? Acredito que muitos podem achar que não tem nada demais nesses comerciais. E de fato não deve ser nada demais, caso você aceite como mandatória e universal a delegação de tarefas baseadas no sexo, sendo você o beneficiado marido/filho ou a “zelosa” esposa/mãe. No entanto, nada que é considerado adequado para um ou mais indivíduos deve ser imposto a outro.
Embora eu acredite que existam mulheres que sejam felizes, e talvez até tenham vocação em se dedicar exclusivamente a casa e à família. Para cada uma das poucas mulheres que encontrei nessa situação, encontrei outras dezenas descontentes, conformadas ou não, em aceitar tais atribuições. Afinal, “as coisas são assim”…
Então, por mais que talvez o anunciante esteja querendo se dirigir a essa figura mítica da mulher responsável pelos seus, que certamente ainda existe na população, os responsáveis pelo marketing da Esmaltec, assim como os agentes publicitários contratados para elaboração da campanha, não deveriam ignorar o papel naturalizante de preconceitos e ideologias que os produtos de suas comunicações exercem. Até porque quem paga o pato no final é a marca como um todo e não os indivíduos responsáveis por ela.
Mas o que mais me impressiona nesse caso é o não alarde de nenhum órgão feminista, de direitos humanos ou zelador da ética no meio publicitário (como o CONAR) terem denunciado ou combatido uma peça que em nada ajuda na real evolução da nossa sociedade.
Esse texto é pra você que viu o filme e que achou o filme não tem nada a dizer ou a acrescentar…
Como vocês bem sabem, a nossa equipe foi conferir a deusa Kylie estreia do novo longa do diretor francês Leos Carax no Festival do Rio. E como as circunstâncias fizeram com que eu visse o filme duas vezes no mesmo dia (e de graça) vou tentar falar sobre essa obra tão plural. E já adianto que se você vier com o argumento de que achou chato, responderei apenas que, para citar uma fala do filme: “A beleza está nos olhos de quem vê”. E se você teme spoilers, digo que não pretendo explicar nada, só apontar algumas das minhas impressões durante a experiência.
Segundo o diretor, apesar da impressão de muitos espectadores, disse que esse não é um “filme de cinéfilo”. Até entendo que ele traz muitos outros questionamentos, mas é difícil não perceber referências ao cinema surrealista de Buñuel e David Lynch, por exemplo. Isso sem falar da impressão que se tem de que o diretor usa quase todas as facetas do cinema: musical, perseguição, gore, drama familiar, animação, ficção científica… Enfim, não é somente possível ver diálogo apenas com trabalhos de outros cineastas e diversos gêneros, mas também com a obra do próprio Leos.
Sendo o filme carregado de referênciais, intencionais ou não, fiquei espantando quando percebi comentários de outros espectadores dizendo que o filme era chato e não dizia nada, que era “apenas pra sentir/experienciar a película”. Como assim?! Não existe produto cultural que escape à realidade do produtor, por mais “ficcional” que possa ser! Esta “análise” mesmo possibilitacompreender fatos da minha realidade, e as suas interpretações dela da tua.
Para tentar remediar a injustiça produzida por esse rótulo de “discurso vazio” que resolvi escrever esse post!
Não quer passar por sucateiro? Extenda a vida do seu iP4!
Semana passada lançaram o novo acessório-obrigatório-pra-os-que necessitam-dar-recibo de-status iPhone5. E para desgosto dos adeptos do culto Apple, ele não tirou a posição de Galaxy S3 como melhor smartphone do mundo. Sim, essa afirmação é bastante minha. Mas acredito que todo mundo tem um conhecido que faria questão de dizer a cada minuto que o “precioso” iP5 superou a concorrência. O que não significa dizer que não há quem defenda a novidade afirmando que o novo aparelho é infinitamente melhor, mais rápido e fino que o anterior. Até porque, com o hype que embala a marca da maçã, pega mal dizer que o rei está nu.
Então pergunto, o que determina o “bom gosto”? Será que tudo que está consensualmente definido como sendo de boa qualidade é fruto das ações de comunicação das grandes empresas? Ou, quando as pessoas começaram a receber passivamente a indicação de que algo é “o melhor” e ponto? Estamos todos tão suscetíveis a promoção de status, que certas mercadorias garantem com a sua aquisição, a ponto de não nos importarmos se tal produto é de fato bom ou apenas o antigo com uma nova roupagem? Continuar lendo →