A década de 30 bate na nossa porta: “Gays, Espinafre e Cabras” da Revista VEJA | Os Entendidos

A década de 30 bate na nossa porta: “Gays, Espinafre e Cabras” da Revista VEJA

Os Entendidos

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Em 12 de novembro de 2012
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Texto de autoria de Felipe Goebel

Saiu ontem na Revista VEJA, revista de maior tiragem nacional, um dos artigos mais reacionários contra o Movimento LGBT que li em muito tempo. Foi falta  grave de conhecimento, baixa capacidade de análise crítica dos fatos, má fé do tipo mais sórdido… Tentativa baixa de agradar os assinantes conservadores de direita da revista? O que motivou e o que esperava o senhor J. R. Guzzo (que é inclusive diretor de redação da revista) ao escrever tal artigo não importa muito; o que importa de fato é que um artigo incendiário foi publicado em uma das revistas de maior circulação e visibilidade do Brasil. Artigo este que, entre outras barbaridades, recusa-se a usar o termo homossexualidade e se vale do termo homossexualismo a todo moment; recusa-se a aceitar que o Movimento LGBT exista e que tenha propostas e anseios bem elaborados e estruturados; recusa-se a aceitar que a homofobia e a misoginia marquem a vida brasileira. Se recusar é a palavra chave para entender o artigo e até mesmo a postura adotada pela Veja e pela direita brasileira nos últimos anos.

É chocante que um jornalista de hoje, em pleno século XXI, seja capaz de disseminar dessa forma ideias tão reacionárias e que foram desenvolvidas na década de 1930, há mais de oitenta anos. A revista começa argumentando, dessa forma retrógrada, que homofobia não existe, uma vez que morrem muito mais heterossexuais do que gays por ano no Brasil, sem questionar quantos heterossexuais são mortos por ano simplesmente por serem heterossexuais, e dessa forma conclui que os crimes cometidos por homofobia no Brasil podem ser ignorados devido ao índice altíssimo de violência no país. Qualquer pessoa, independente da sua sexualidade e do seu gênero, pode sair na rua e ser atacada, assaltada, sequestrada etc. Isso é um crime que advém do alto índice de violência que marca o país. Porém, se eu saio de casa, e sendo homossexual assumido público e notório, sou atacado, linchado e xingado… Por essa atribuição existe sim uma diferença clara de motivação por trás do crime, e este é sim um crime motivado por discriminação e preconceito.

Na parte mais engraçada e ridícula absurda do artigo, a argumentação do casamento gay é invalidada pelo fato de que homens não podem se casar com espécies diferentes, como cabras, apesar de poderem ter um relacionamento estável com cabras. E que um homem casado com um homem, ou uma mulher casada com uma mulher, não geram filhos, e por isso o relacionamento não pode ser considerado um casamento. Um pouco atrasado no pensamento de que família é só aquela formada por marido/mulher/filhos, hein?… Muito bonita [só que ao contrário] sua defesa do pensamento ultrapassado de “família tradicional brasileira” que, historicamente, sofre mudanças severas desde pelo menos a década de 1940, e que hoje possui molde que nem é mais maioria na formação familiar brasileira!

Comparar homossexuais – e a identidade política e cultural de milhões de brasileiros que se envolvem com o Movimento LGBT – com espinafres, cabras e algo que nem existe, senhor Guzzo, é feio e ofensivo. Eu não sou um vegetal e nem um animal, e faço parte de um Movimento que existe, sim senhor! Sou um ser humano que deve ser respeitado como qualquer outro. As pessoas até têm o direito de não gostarem de mim pelo fato de eu vivenciar minha sexualidade de forma supostamente diferente, mas ninguém tem o direito de me discriminar de qualquer forma por isso. Da mesma forma, podem até ter o direito de não gostarem de negros, judeus, pardos, asiáticos e espinafres, mas não podem simplesmente sair por aí perseguindo, humilhando, destratando e discriminando alguém que se enquadre nessas características. Não gostar de algo é um direito, mas transformar isso em preconceito e violência não é nem um direito e nem mesmo tolerável.

Ao fazer tal comparação, a revista VEJA só se torna tão baixa e ultrapassada quanto os argumentos médicos e criminologistas da década de 1930 que defendiam que homossexuais estavam à margem social e eram um problema  da sociedade moderna, devendo dessa forma serem segregados e estudados. Há a diferença de que, ao se recusar a aceitar que a homofobia exista e que toda exigência do Movimento LGBT é “nociva”, sendo a mais “nociva dessas exigências” a de criminalização da homofobia, Guzzo e a VEJA defendem que minorias sociais, historicamente perseguidas e oprimidas, não deveriam ser defendidas, e nem lutarem por um espaço de maior representatibilidade e igualdade, de nenhuma forma.

Será que Guzzo é tão mal informado a ponto de ignorar milhares de estudos historiográficos e sociológicos que demostram como a subcultura gay no Brasil sempre foi extremamente bem desenvolvida e articulada, pelo menos desde os anos 1950? Mais chocante ainda: será que a editoração da VEJA é tão mal informada que ignorou que o PL122 também criminaliza a misoginia e que a criminalização da homofobia já foi aprovada no novo Código Penal? É sério, gente, é só jogar “PL122″ e “criminalização da homofobia no Brasil” no Google para se ter um arcabouço argumentativo mais bem elaborado que o do Guzzo…

Por isso que realmente não acredito que tenha sido por falta de conhecimento ou de informação que um artigo desses foi escrito. Trata-se, claramente, e na minha opinião, de má-fé clara e simples de uma das mais conservadoras revistas do país, e que visa dessa forma agradar seu público leitor mais reacionário e voraz em algo que não sejam críticas ao PT e ao Governo Dilma, uma vez que esse tema já se tornou excessivamente explorado e cansativo até para os leitores da VEJA.

E esta é a Revista VEJA: há quase 50 anos perdendo uma ótima oportunidade de ficar calada e expondo ideias ultrapassadas e reacionárias, e acima de tudo prestando um desserviço ao brasileiro e aos direitos humanos.

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