(Escrito em colaboração com o Entendido sulista Mateus Muzulon)
Quando a garota americana Alecia Moore, 33 anos, cantora, acrobata, compositora, dançarina, atriz, ativista, filantropa e ex-vendedora de McDonald’s, surgiu no cenário musical, em 2000, como a cantora de pop-r&b e com o codinome P!nk, ninguém imaginaria quem ela seria em 2012 e o que ela havia passado para estar lá. Da infância nos subúrbios, conturbada por disfunções familiares, drogas e outras desilusões, até o sucesso, foi uma longa caminhada. E quando lançada, ela era uma moda criada pela gravadora para aproveitar a onda de sucesso em torno do estilo r&b. Embora tivesse seu diferencial: sua voz rouca nunca combinou com o r&b e seu estilo não era entendido por todos. E, hoje, com uma carreira diversificada e divulgando seu sexto álbum de estúdio (The Truth About Love), ainda não é.
Seu primeiro álbum, pensado para ser um produto de pop r&b bem lapidado por L.A. Reid, Can’t Take Me Home, vendeu mais de 4 milhões de cópias e garantiu sucessos como “There You Go” e “Most Girls”.
Logo mais, no ano de 2001, ela participou da trilha sonora do filme Moulin Rouge! regravando a clássica “Lady Marmalade”, que contava também com Mya, Christina Aguilera e Lil’ Kim. Nos bastidores, houve uma briga entre P!nk e o empresário de Christina, que queria uma participação maior desta última. Não deu certo: P!nk brigou e todas cantaram partes iguais, apesar da maior publicidade gerada ir diretamente para Aguilera. E a música foi um sucesso pop, rendendo o #1 na Billboard e um Grammy. Embora haja uma rixa entre fãs, em declarações recentes, Aguilera disse não ter nada contra P!nk e que chegaram a trocar um beijo na boca durante uma festa. P!nk fez elogios ao trabalho de Aguilera também, em 2011.
Mas, apesar do sucesso com o pop e o r&b, P!nk não era uma garota comum no mercado fonográfico. Ela não queria mais o que a gravadora gostaria de lançar. Então resolveu lutar de novo e tomar as rédeas, chegando a brigar com seu mentor, L.A. Reid, para tomar outro rumo: o álbum M!ssundaztood. Deixo a crítica especializada tomar a palavra: “Quem teria a ideia e a inclinação de pegar o rock do final dos anos 80, misturar com modernos dance e r&b e depois cobri-los com uma produção pop arrojada e ainda não evitar assuntos conturbados e melodias tristes (especialmente seus problemas familiares [‘Family Portrait’])?” (ERLEWINE, Stephen, allmusic.com, 2012). P!nk, seria a resposta. Mas a atitude ainda não era bem compreendida, nem as letras que ela escrevia, também. E quem se importava? Ela estava vendendo 15 milhões de cópias e seus singles (“Get the Party Started”, “Don’t Let Me Get Me” e “Just Like a Pill”) eram tocados incansavelmente ao redor de todo mundo!
Ela estourou, viajou pelo mundo com uma exaustiva agenda de divulgação e logo depois, em 2003, voltou ao estúdio para gravar seu terceiro album, o Try This. Esse album jogou fora qualquer produção arrojada e vestígio de r&b que poderia haver no M!ssundaztood. É cru e rock’n’roll, com letras menos complexas também. Segundo P!nk, o álbum não importava muito, o objetivo era sua tour mundial e para isso precisava dele. Mesmo assim, o resultado é um excelente, porém barulhento álbum (destaques para “Trouble”, “Last to Know”). Considerado um fracasso pela gravadora e pela crítica, por não ter a mesma visibilidade do seu antecessor, vendeu mais de 3 milhões de cópias. A turnê, a Try This Tour, rendeu um dvd no final de 2005, além de belíssimo cover de Janis Joplin, artista citada como referência por P!nk.
Ao final da turnê, sem muita visibilidade nos EUA e recebendo críticas exaustivas dos tablóides e da crítica especializada, que insistia em chama-la de forçada, Alecia resolveu virar sua carreira: nascia seu mais famoso e amado álbum, por todos os fãs: I’m Not Dead. Mas o que há de tão incrível por trás desse trabalho? Uma artista que havia passado por criticas de todos os lados e que, com tudo isso e juntando o que restou, havia chegado a sua maturidade. Nasceu uma mistura de estilos, dando lugar ao mais aclamado álbum pop do ano de 2006. Nele, P!nk critica o ex-presidente George Bush com sua voz, um violão e as Indigo Girls como suporte (“Dear Mr. President”), canta ainda sobre o fim da amizade em “Who Knew” e, claro diz que não está morta apesar de tudo (“I’m Not Dead”). Entre acordes de violão, notas de piano, guitarras e baterias e sua voz forte e rouca, ela desenvolve como nunca sua composição, representando, de forma geral, como a vida é uma bagunça de sensações, tristes e felizes, banhadas em críticas ácidas em cada música, e usando tudo isso em um extenso e intenso processo de catarse.
O que pode ser observado é que, com sucesso mundial, a imagem de P!nk começou a ser mais aceita. Isso acontecia porque as pessoas e a crítica se acostumaram a ela, mas de fato ainda não entendiam-na. Apesar disso, “Stupid Girls”, uma ácida crítica a sociedade de consumo e às garotas que se entregavam a isso, e “Dear Mr. President”, são veneradas como excelentes musicas de protesto. Essa crítica se uniu a imagem de garota mais feminina que a artista apresentou, levando à aceitação citada anteriormente. P!nk, então, passou a ser mais tragável no meio musical, justamente por se mostrar mais pessoal e intimista do que nos outros dois álbuns.
Ela então não perdeu tempo: fez suas malas, colocando dentro dela suas melhores músicas, e partiu para sua segunda turnê mundial, a I’m Not Dead Tour. Passando pelos 5 continentes, logo veio um DVD e a felicidade era visível em cada show. Mas isso toda não durou muito, pois após o estrondoso sucesso, P!nk e Carey Hart, seu marido desde 2006, se separaram, gerando grande sofrimento para ela. As brigas foram o principal motivo, segundo Carey, em entrevista. Com a música como único remédio, P!nk logo transformou o próximo trabalho, Funhouse, em uma ode ao final infeliz de seu casamento.
P!nk fez mais uma vez o que já havia feito no I’m Not Dead, mas dessa vez o novo trabalho seria algo, no mínimo, exótico. Quando cantores-compositores falam em CDs sobre perdas e acontecimentos infelizes, esperamos coisas calmas e muitas baladas. Não é isso que você vai encontrar em Funhouse. Ao invés disso, ela encheu tudo de energia e letras dramáticas e sarcásticas. Não apenas sobre o fim do casamento, mas sobre tudo: ela mesma, o mundo, uma viagem com drogas que não deu certo (“Sober”, “Ave Mary A” e “One Foot Wrong”, respectivamente). O hino comercial que deixou sua marca rock no topo da Billboard e em milhares de fãs ao redor do mundo, “So What”, também faz parte desse registro memorável. Seu clip é divertido e maravilhosamente bem feito, como, aliás, quase todos que ela já havia feito ou viria a fazer.
Contudo, o que fez da Era Funhouse a melhor fase de P!nk foi mesmo a Funhouse Tour. Considerada a 5ª tour feminina mais conhecida, é um trabalho que mostra como e porque P!nk é considerada uma das melhores performers pop de todos os tempos. Ela canta correndo, recheia com versões acústica intimistas em cima de um banquinho e ainda executa complicados números de circo, de ponta cabeça, enquanto gira cantando… E ela ainda consegue tempo para fazer o considerado, pelos próprios fãs do Queen, o que seria o melhor cover já feito da música “Bohemian Rhapsody”.
Enfim, após dois anos de turnê e uma memorável performance no Grammys (“Glitter in the Air”), P!nk tinha 10 anos completos de uma carreira sólida e original, banhada por boas posições nos charts e considerada pela Billboard como uma das melhores artistas pop da década passada. Em comemoração, foi lançado, em 2010, a compilação Greatest Hits… So Far!!! e dela foram tirados dois grandes hits da cantora, “Raise Your Glass” e “Fuckin’ Perfect”, que se tornou um verdadeiro hino de auto-aceitação e superação. Não é surpresa que, para uma coletânea, o CD vendeu muito bem, ultrapassando as 3 milhões de cópias. Naquele estágio de sua vida, P!nk já havia voltado as boas com seu marido Carey e anunciou que estava grávida de seu primeiro bebê, a menina Willow.
Todo esse processo de continuo sucesso e honestidade no seu trabalho deram a oportunidade que a popstar precisava pra mostrar quem ela realmente era: talentosa, crítica e realmente boa no que faz, e também alguém com um lado mais leve. Isso começou com o I’m Not Dead e concretizou no seu sexto registro, que ainda estava para chegar. Mas ela precisava de um tempo, e assim se fez… Quase dois anos longe dos palcos.
Então ela resolveu aparecer “do nada” depois de todo esse tempo, anunciando um novo single (“Blow Me (One Last Kiss)”). Começava, então, um novo trabalho: The Truth About Love. O que esperar dela àquele estágio da carreira e da vida? Ela não havia desaparecido dos holofotes, todos sabiam ainda quem era ela, especialmente por causa do nascimento de sua filha. Talvez ela tivesse “amaciado” as coisas, não? Não. E ela deixou isso claro com o 1º single, uma música agitada sobre sentimentos vazios em um relacionamento. Mas algo estava diferente nela, de novo… Para a alegria dos fãs!!!
O novo trabalho mostra uma nova fase, uma nova P!nk. Uma mulher completa. Quando você a vê, nota como ela cresceu. Feminina (apesar de ter raspado as laterais do cabelo para esta nova fase), mãe, ativista, artista respeitada. Ela exala felicidade pelos poros. Tudo isso nós sentimos no novo trabalho. The Truth About Love tem uma aura aconchegante, pop, leve, mas ainda assim respeita os traços do que nós conhecemos: crítica, rock, toques de violão, músicas pop-rock com estilos inesperados. “Slut Like You”, por exemplo, é, como ela mesma diz, “um meio feminista e não-sofisticado de tomar o poder de volta”, “Just give Me a Reason”, com o vocalista da banda fun., uma bela balada ao piano sobre um casal que quer consertar as coisas. Os temas são variados ao longo do album, desde músicas para insultar (e ao mesmo tempo dizer que ama) seu marido (“True Love” com Lily Allen, “How Come You’re Not Here”), e até um olhar sobre o lado negro: suicídio e aborto (“The Great Scape”, “Beam Me Up”). E, claro, uma música sobre a filha, a linda “Run”.
Todo o trabalho vem sendo reconhecido de forma maravilhosa, a medida que vemos ela ter seu primeiro topo no chart de álbum dos EUA, vendendo 600 mil cópias no mundo em uma semana. É interessante perceber ainda como a crítica e uma parte mais abrangente do público passaram a realmente entendê-la, pelo fato de finalmente enxergarem seu talento. E ao final, é gratificante ver como uma mulher é capaz de evoluir, se superar como artista e pessoa. É bom saber que a garota que cantou “Eu não quero que o amor me destrua como fez com minha família…” hoje canta: “Você não vai me perder, porque a paixão e a dor vão nos manter vivos!”
Para encerrar esse post fica a dica do show maravilhoso de retorno aos palcos e apresentação do novo álbum, no iTunes Festival desse ano.




