Aristogatas, Negros e o Jazz

Mais um pouco da Disney como Ela é! Vamos falar sobre alguns sucessos da Disney de um outro ponto de vista?

Dentre alguns desses sucessos, podemos destacar aqueles que se tornaram, de certa forma, um reflexo da sociedade mundial em suas devidas épocas. Dois filmes podem ser analisados dessa forma numa primeira observação: Aristogatas de 1970 e A Pequena Sereia de 1989. Nesse post analisaremos apenas o primeiro deles, já que A Pequena Sereia pode render várias teorias.

O filme, Aristogatas, conta a história de uma família de gatos da alta sociedade que estão para herdar toda a fortuna de sua dona. Duquesa, Marie, Tolouse e Berlioz são os sortudos gatinhos que seriam os maiores beneficiários do testamento. Numa onda de ciúmes e indignação o Mordomo Edgard decide livrar-se da família felina, sequestrando-os e os levando para fora de Paris. Quando se depara com dois cães que o atacam: Lafayete e o Comandante Napoleão. Tudo ocorre numa noite de tempestade na França, o que poderia ter sido apenas um toque de suspense ou poderia estar fazendo referência a grande Enchente de Paris ocorrida no mesmo ano em que se passa a história, 1910.

A cesta em que os gatos estavam sendo carregados cai da motocicleta que Edgard pilotava enquanto era atacado pelos cães, deixando a família felina embaixo de uma ponte. Eles acordam sem saber onde estão. Após uma longa noite chuvosa, Duquesa acorda ao som de uma canção sendo entoada por outro gato, Thomas O’Malley. A partir daí, o gato vira-lata decide levar a pequena família de volta para casa.

Um dos toques mais originais da animação, como é de costume da Disney, está na trilha sonora que é basicamente Jazz. Ao regressarem a Paris, O’Malley apresenta Duquesa e seus filhotes à seus amigos, uma verdadeira banda de Jazz onde vários gatos do gueto tocam e cantam. O principal integrante da banda, o Gato Pilantra canta num tom que lembra Louis Armstrong. O que passa desapercebido aos olhos das crianças, mas salta aos olhos de qualquer adulto com uma formação na área de humanas ao reassistir Aristogatas, é justamente essa banda de Jazz formada por gatos marginais. Gatos marginais e aparentemente “negros”.

O Jazz foi um tipo de música exclusivamente negra por muitos anos, surgido em Nova Orleans nos Estados Unidos, ele passou a fazer sucesso na França antes mesmo de ser “permitido” nos Estados Unidos. Os estilos ali derivados como o Blues e o Soul em companhia do Jazz eram considerados anticristãos pela sociedade branca e heterossexual norte-americana. A popularidade do Jazz ocorre dos anos de 1920 até o final dos anos de 1960, década na qual a animação havia sido produzida. A ideia dos estúdios Disney, ao que parece, foi justamente tirar da marginalidade e desmistificar artistas negros e sua música mostrando a aceitação da Alta Sociedade de Paris para com esse tipo de movimento cultural. Duquesa e seus filhos representando justamente essa parcela da sociedade, enquanto O’Malley, o Gato Pilantra e sua banda representam aqueles marginalizados.

No design da banda encontramos ainda algumas referências hippies, e, com clareza, influência de toda a boêmia causada por esses grupos particulares de pessoas na época. Vale lembrar que esse filme foi o último projeto a ser aprovado por Walt Disney antes de morrer e o primeiro longa-metragem a ser produzido após sua morte. Ele é diretamente precedente a Mogli, ainda com a trilha dos irmãos Sherman, que são os compositores da belíssima trilha de Mary Poppins que rendeu a Julie Andrews seu Oscar de melhor atriz em sua estreia no cinema.

A verdade é que Walt Disney sempre foi engajado, o mesmo pode ser dito sobre seu estúdio. Independente de qual era esse engajamento, tendendo mais para a direita ou para a esquerda, sendo ele conservador ou liberal, na verdade seus projetos sempre estiveram cheios de referências políticas e sociais, além de filosóficas. Dentro da história dos estúdios Disney é possível identificar algumas propagandas políticas de guerra, como nos dois primeiros filmes de Zé Carioca.

Aristogatas foi um filme que veio para intensificar o cunho social da Disney e do impacto das histórias “para crianças” feitas por eles. Apesar de não ser um dos mais famosos, esse filme se provou um dos mais interessantes nesse sentido. Contando até com a presença de uma “homenagem” a Napoleão Bonaparte, e mesmo tendo sido um filme parecido com A Dama e o Vagabundo, é um dos Clássicos Disney que trouxeram uma das melhores mensagens práticas para os espectadores: pessoas podem ser boas, corajosas e honestas independente de sua classe social, cor, nacionalidade ou qualquer outra rotulação que insistimos em fazer no decorrer da história.