Não, eu não estou fazendo apologia às orgias e ao que ainda se considera aberração e bestialidade (também não estou julgando o que possa vir a ser isso). Estou convidando os leitores a pensar de maneira mais tolerante quanto ao “Universo” alheio, o respeito à vida e às escolhas dos outros.
Não apontar o dedo ao outro, em forma de julgamento, é um exercício.
“Existe ex-gay.” Essa frase pode parecer extremamente absurda a qualquer pessoa que pense de maneira cartesiana, que está acostumada com rótulos e padrões delimitadores:” temos de fazer assim, pensar assado, vestir isso, comer aquilo”, sempre legitimado com o comportamento de massa. O que a maioria faz, você “tem de fazer”, como nossa brincadeira de infância chamada “macaquinho/chefe mandou”.
Eu mesmo, há tempos atrás, poderia dizer que não existe ex-gay, mas com o tempo percebi que existe algo por trás de toda nossa atuação _ sim, acredito que 90% do que vivemos é pura atuação (somos de um modo para nossos familiares, de outro para nossos amigos, outro ainda no trabalho, outro nos relacionamentos amorosos ou sexuais e por aí vamos sendo cada vez mais outros) e ainda acreditamos ser nós mesmos no meio de todo esse espetáculo _ onde ser homem ou mulher é apenas alegoria.
Mesmo com toda nossa limitação, entre os chamados “mente aberta”, admitimos o fato de sermos seres no mínimo “duais”, que transitam entre “bem e mal”, “masculino e feminino”, “jovem e velho”, “rico e pobre”, “bonito e feio”…enquanto o modo cartesiano diz que somos “isso ou aquilo”, sem a “possibilidade de novas possibilidades” (eu sei,o pleonasmo foi proposital). Quero dizer, sim, que quem é bonito pode ser feio ao mesmo tempo (para o mesmo referencial), assim como pode ser bom e mau, jovem e velho e por fim, masculino e feminino (independente do fator transexualidade).
Vivemos em um sistema que impõe rótulos e direcionamentos unilaterais, que nos julga pela imagem e que nos diz em alto e bom tom, mesmo com toda linguagem velada, que somos menos do que realmente somos. Puxando a brasa para a minha sardinha,e levando esse tópico à questão da sexualidade, creio que nós estejamos vivendo ainda em um mundo “heterossexista”,que apesar da transição (devagar e sempre), vive uma pluralidade de possibilidades amorosas e sexuais, apesar de arrotar uma falsa heterossexualidade, como um personagem interpretado inadequadamente, se é que isso existe.
Não quero ditar o comportamento de ninguém, mas acho interessante ressaltar que cada um de nós é um universo particular, rico de modelos e referências próprias. Temos o direito de gostar ou desgostar de algo que vemos no outro,mas não temos o direito de julgar ou interferir. A imagem é apenas uma imagem e somos sempre muito mais do que ela. Não viemos com manual de instrução ou botão de liga/desliga que nos permita mudar de função com alguma especificidade.
Nossa sociedade se escandalizou (2008, em pleno século XXI) com a notícia da gravidez do transexual americano Thomas Beatie (ele não fez nada além de viver sua vida e constituir sua família), por se tratar de uma mulher, que decidiu viver como homem e resolveu engravidar devido a impossibilidade de gravidez de sua esposa, Nancy, que sofrera uma histerectomia.
“Querer ter um filho biológico
não é um desejo feminino ou masculino,
é um desejo humano.”
Outro caso que virou notícia e alvo de polêmica foi a história do ex-travesti e agora pastor, Joide Miranda, que após viver anos como mulher, casou-se com uma, teve um filho e declara estar “curado da homossexualidade por Deus” _ que apesar de eu não concordar com esse ponto de vista (não há doença a ser curada no caso), cabe-me apenas respeitar.
“A homossexualidade é uma conduta aprendida.
Deus restaurou minha identidade e, quando ele faz isso,
não há força maligna que faça voltar atrás.”
Buck Angel, o norte americano conhecido como “o homem com vagina”, passou pela transformação de gênero feminino para masculino, por não se enxergar como mulher, e hoje atua em filmes pornôs transando com….homens. Isso mesmo. E declara:
“As pessoas te põem em caixinhas. Tem que ser ser gay, hétero ou bi. Estou mostrando que as coisas não são assim tão limitadas. Você não pode negar que sou completamente homem. Quando estou transando com um homem, parece uma transa gay. Mas você vê um pênis penetrando uma vagina, então… é uma relação hétero ou o quê?
Curioso, não? E as pessoas odeiam quando as coisas não cabem nas suas ‘caixas’ classificatórias…
…e na verdade me sinto um garanhão que tem uma vagina!”
Era uma vez, um britânico chamado Barry Watson. Ele era casado com Anne, que hoje é casada com Janye, que é ninguém menos que Barry. Hein? Complicou? Sem pânico. Barry se submeteu à mudança de sexo, e aliviou sua esposa, que suspeitava de um caso extra-conjugal do marido e nem desconfiava que na verdade, ele queria ser como ela.
“Dizer à mulher que eu amo
que queria ser uma mulher não foi fácil.
Agora vamos conversar
sobre cabelos, roupas e maquiagem.
Nosso segundo casamento
foi mais especial que o primeiro”
Eu poderia citar infinitos outros exemplos, mas acho que já deu para entender. Padrões existem,e temos de lidar com eles, mas não somo obrigados a segui-los (não todos). E acho que nem precisava dizer isso, mas todos nós somos minoria sob algum aspecto, e para sermos respeitados, precisamos respeitar.
Estamos “entendidos”? Paz para todos.
“Não deixe a diversidade
se transformar em adversidade.”
Jadson Ferreira





















