2012 parece ser o ano de retorno delas. Sinéad O’Connor lançou álbum novo (How About I Be Me – And You Be You- ?) em março. Fiona Apple retornou com sua controversa carreira depois de sete anos parada, com o incrível The Idler Wheel… , que causou frisson na mídia e principalmente nos fãs. Outro grande nome do grupo das meninas raivosas, Alanis Morissette promete álbum para agosto e já tem até nome, Havoc and The Bright Lights e conta com a belíssima Guardian (escrita para o filho recém-nascido) como carro-chefe. Outros artistas que influenciaram, e foram influenciados, por todo esse grupo de moças raivosas e talentosas parecem também estarem de volta na pista: a banda de rock alternativo Garbage (liderada pela misteriosa Shirley Manson) retomou a carreira com o álbum Not Your Kind Of People e tem até show marcado no Brasil, no Planeta Terra Festival em outubro. No Doubt depois de anos sem dar sinal de vida, e com mil boatos de retorno efetivo desde sua pausa em 2001, tem álbum novo previsto para setembro e um single (Settle Down) já lançado. E o que falar da antológica Courtney Love? Talvez a artista que mais influenciou e bebeu da fonte do Riot Grrrl e do Chick Rock tenha tido muitos altos e baixos em sua extensa carreira musical, mas depois do fracasso de divulgação do excelente Nobody’s Daughter lançado premeditadamente como um retorno de sua banda Hole com novos integrantes em 2010, Courtney Love está em estúdio gravando um novo álbum com a banda. Sem data prevista, resta ficarmos na esperança de que Love irá retornar melhor do que nunca, e sem um grande período de espera…
Mas quem são essas garotas e porque elas são especiais, você deve estar se perguntando. Na década de 90, quando elas surgiram, o cenário musical era bastante diferente do de hoje em dia. De um lado havia o rock e suas variantes contestadoras (ou mais melancólicas como o caso do grunge, que alcançou rápido e estrondoso sucesso com o Nirvana) e de outro o pop, pré-produzido e sem pessoalidade, onde bandas como N’Sync, Backstreet Boys e Spice Girls dominavam as paradas. Havia ainda nomes como Madonna e Michael Jackson, com sua proposta de se criar um grande e estupendo espetáculo pop repleto de luzes, dançarinos e sexo.
Por não conseguirem se identificar nem com a raiva e a contestação generalizada do punkgrunge rock e nem com o escapismo e sexismo do pop, tais artistas iriam explorar uma pessoalidade extrema em suas produções, abordando temas pessoais da forma mais catártica possível. Deixava-se de lado o brilho e a pré-produção do pop e a raiva extremada do rock, buscando algo mais cru, mais visceral, com produções não muito elaboradas, passava-se a ter como preocupação máxima as letras angustiadas e a pessoalidade catártica…
Justamente em meados da década de 90, artistas como Alanis Morissette, Fiona Apple, Sinéad O’Connor, Cat Power, PJ Harvey e Tori Amos assumem uma grande parcela da cena musical. Legiões de fãs eram arrebatadas para seus shows e as vendagens de seus discos de estréia batiam recordes… As músicas raivosas, e com composições basicamente orgânicas e simples, tratavam de temas pessoais e complicados, mas que qualquer um poderia se identificar: problemas de aceitação, relações familiares conturbadas, fim de um relacionamento amoroso, depressão, rancor, passado religioso… Hoje em dia isso pode soar batido, mas na década de 90 um número bem pequeno de artistas de fato se envolviam com a produção de suas músicas (atuando tanto como escritores e compositores como intérpretes), e os que o faziam ficavam restritos ao cenário underground do rock alternativo. Portanto, conseguir sair do submundo da música alternativa e chegar ao cenário mainstream (com altas vendagens, legiões de fãs, shows lotados etc) com uma proposta que não fosse de plástico e nem cheia de efeitos especiais foi um feito muito louvável!
Hoje, em 2012, pelo menos metade dessas cantoras-compositoras raivosas estão de volta à ativa, provando que pessoalidade e autenticidade nunca sairão de moda. Sua influência pode ser sentida até os dias atuais, uma vez que encontramos artistas como Adele, Amy Winehouse, Christina Aguilera, Shakira, P!nk, Avril Lavigne e até Madonna (somente para citar grandes nomes) abordarem temas controversos e pessoais de forma a se livrar com sua música de demônios internos, é graças em boa parte a esse grupo de garotas compositoras raivosas. E o que falar da geração herdeira do pop-rock que se inspira diretamente nesse movimento?
Quer saber quem elas são? Em que ponto as carreiras delas estão, quais seus planos para esse ano? Então pega esse teu rancor, pensa naquele teu namorado cafajeste que você não consegue esquecer e vem comigo!
Tori Amos
(com a colaboração do Entendido Hernando Siqueira!)
Tori Amos foi uma das primeiras a levar adiante o movimento das Riot Grrrls. Completando em 2012 20 anos de uma carreira baseada em sinceridade ao extremo, desde os anos 80 tentava o sucesso com suas composições, sempre baseadas no piano. Depois de levar inúmeros não’s e chegar a ouvir de uma gravadora que a ideia de “garota com um piano” era coisa do passado, acabou se enveredando pelo Chick Rock, lançando em 1988 a banda Y Kant Tori Read. Chegaram até a ter um videoclipe, The Big Picture, mas foi um completo fracasso, a ponto da cantora ser chamada pela Billboard de “Bimbo” (algo como “Mulher Burra”)! A grande virada, porém, veio exatamente desse passo em falso: como ela tinha um contrato de vários discos com a gravadora que lançou o YKTR, possuía agora o argumento de que se fugisse de suas raízes musicais, ela nunca teria êxito comercial… E que raízes, já que Tori começou a tocar piano com dois anos e meio, sendo admitida num conceituado conservatório aos cinco (ainda que desavenças tenham a tirado de lá aos onze)! Pois finalmente deu certo. Seu álbum de estreia, Little Earthquakes (1992), não só causou furor à época do lançamento, como vendeu mais de 5 milhões de cópias. Foi com este disco também que Amos conseguiu emplacar suas marcas registradas: letras confessionais, às vezes oníricas, às vezes brutais (ou ambas), cabelo ruivo, catarse ao vivo, melancolia e o piano, seu eterno companheiro. Ela chegou a afirmar em 2005 que se a paz mundial fosse alcançada pela sua abdicação em tocar o instrumento, ela pensaria duas vezes antes de tomar a decisão!
No momento, Tori está lançando um álbum comemorativo de suas duas décadas de carreira solo, Gold Dust, composto de regravações de canções vindas de seus mais de 10 discos. Estas novas versões foram gravadas em companhia da Metropole Orchestra, e em promoção ao novo trabalho virá uma minitour, durante os meses de outubro e novembro! Deixamos como dica para conhecê-la melhor uma playlist com canções ao vivo perfazendo toda sua carreira, e para ouvi-la, é só clicar neste link > <. Como um vídeo, assista também o belíssimo clipe de Silent All These Years, seu primeiro single.
Alanis Morissette
Alanis Morissette é consagrada como um dos nomes mais famosos e proeminentes do Chick Rock. Com sete Grammys na bagagem, 21 anos de carreira e oito álbuns lançados, Sra. Morissette é considerada uma das mais bem sucedidas cantoras-compositoras surgidas na década de 90. Seus dois primeiros discos de 1991 e 1992, através de uma gravadora canadense de médio porte, foram lançados quando Alanis era ainda muito nova e tinha pouco controle de sua vida e de sua carreira, ficando assim restritos a uma divulgação somente no Canadá. Apesar disso Alanis sentiu o gosto do sucesso e estando insatisfeita com o rumo que sua carreira tomava se mudou para Los Angeles e passou a escrever e a produzir suas próprias músicas, com a ajuda do gênio musical Glenn Ballard. É Glenn Ballard que irá assinar a produção de seu primeiro álbum internacional e a colocar em contato com a recém-fundada Maverick Records (por Madonna e outros grandes nomes). Inspirada em Tori Amos, Alanis rompe completamente com seu estilo anterior ao lançar o hit You Oughta Know (dedicada ao ex namorado que a trocou por outra )e o álbum Jagged Little Pill, em 1995. Marcado por uma sonoridade mais próxima ao grunge rock, com leras catárticas, explicitas e honestas o álbum vendeu mais de 30 milhões de cópias, sendo o disco mais vendido por uma cantora solo até então e recebendo nove indicações ao Grammy. Uma bem sucedida turnê de promoção, diversos singles que tocavam incessantemente nas rádios e na MTV, uma viagem espiritual à Índia, e o lançamento do complexo Suppossed Former Infatuation Junkie (em 1998), garantiram a Morissette o status de compositora experimental e intensa. Problemas em lidar com a fama instantânea, agravadas pelas crises depressivas da cantora, a levaram a um hiatus de quatro anos. Após isso Alanis se reinventou e começou a explorar uma musicalidade mais leve e acústica, com dois álbuns assinados e produzidos exclusivamente por ela, sem se importar muito com a divulgação massiva do material.
Após um controverso e eletrônico álbum, em 2008, recheado de letras irônicas e dedicado ao ex-noivo (o Lanterna Verde bombado, Ryan Reynolds), Alanis parece ter sossegado seu rancor. Se casou com um artista desconhecido do reggae, apoiou o uso e a legalização da maconha, teve uma filha e agora está de volta, para a alegria dos fãs e do mundo! O novo álbum, programado para 18 de agosto se chama Havoc and the Bright Lights, já tem um single (a belíssima Guardian) dedicado ao filho recém nascido, e uma turnê que já esta rolando com algumas músicas novas. Apaixonada pelo Brasil desde sua última turnê em 2009, a cantora já confirmou oito shows em terras tupiniquins no mês de setembro. Certamente um grande retorno, marcado por honestidade, intensidade e livre expressão.
Fiona Apple
Letras metafóricas, pianos raivosos, canções catárticas, declarações polêmicas e a voz rouca e angustiada fizeram com que Fiona Apple alcançasse, já com seu primeiro álbum, o reconhecimento da crítica e do público. Sabendo bem que queria se dedicar a música desde nova, Fiona aprendeu a tocar piano aos sete anos e aos doze já compunha suas próprias canções, sobre suas frustações infantis. Aos dezessete anos fechou um contrato com a Sony Music e aos dezenove lançou seu primeiro álbum, Tidal, todo escrito e composto por ela. Carregado de uma energia melancólica e sombria, com arranjos elaborados, com o uso do piano e de instrumentos de corda e vocais rasgados… Mas o foco principal de seu trabalho será sempre suas letras poéticas e honestas, já presentes em Tidal. O primeiro single, Criminal, contou com um exótico videoclipe com Fiona em vários estágios de semi-nudez e auto-destruição em meio a uma festa, com forte teor sexual. Isso aliado à letra explicita e depressiva gerou uma forte comoção ao redor do mundo, consolidando Fiona Apple como artista promissora. O álbum vendeu mais de 4 milhões de cópias e vez com que Fiona Apple alcançasse completa liberdade artística em sua carreira. O segundo álbum, produzido por Jon Brion, tem o enorme titulo “When The Pawn Hits The Conflicts He Thinks Like A King What He Knows Throws The Blows When He Goes To The Fight And He’ll Win The Whole Thing Fore He Enters The Ring There’s No Body To Batter When Your Mind is Your Might So When You Go Solo. You Hold Your Own Hand And Remember That Depth Is The Greatest Of Heights And If You Know Where You Stand. Then You’ll Know Where To Land And If You Fall It Won’t Matter, Cuz You Know That You’re Right”. O título é na verdade um poema que a cantora escreveu em resposta as críticas que recebeu após uma entrevista dada à revista Rolling Stone, onde criticou fortemente a cultura pop, a exaltação do modelo de vida de celebridades, e afirmou não ligar por ser chamada de depressiva e desrespeitosa com a mídia e com seus fãs. O material bem mais sombrio e carregado de uma sonoridade mais voltada para o jazz e funky desagradou alguns de seus fãs, ao mesmo tempo que provou para a grande mídia o talento de Fiona como compositora. Apesar disso a música Fast As You Can se tornou um hit mundial e provavelmente a mais conhecida da cantora. Após a rápida divulgação do material e de uma pequena turnê Fiona entrou em hibernação, começando a trabalhar em um novo material somente quatro anos depois do término dos shows. Mais uma vez produzida por Jon Brion, Fiona teve o novo material vetado pela gravadora por ser pouco comercial, tendo então que refazer diversas faixas. Alguns fãs chegaram até mesmo a começar uma campanha chamada Free Apple, onde colocavam inúmeras maçãs na frente do prédio da gravadora, após a declaração de que Fiona cogitava abandonar a carreira musical do que descartar o que já havia sido feito. Após o incidente o material foi lançado em 2005 e recebeu o nome de Extraordinary Machine, flertando com uma sonoridade mais experimental e eletronica do que rockjazz, com letras bem mais metafóricas e poéticas.
Esse ano após um hiatus de sete anos, desencadeado possivelmente pelos surtos de depressão após incidentes durante sua última turnê, Fiona Apple retornou com um magnifico álbum. Completamente diferente das suas outras obras, The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do já é provavelmente um dos melhores álbuns do ano. Jogando com uma sonoridade assumidamente experimental e mantendo suas letras confessionais e metafóricas Fiona Apple conseguiu causar uma verdadeira comoção na crítica, que pela primeira vez foi unânime em cair aos seus pés, e no público, que entrou em êxtase por ter de volta uma de suas referencias mais apaixonantes. O álbum estreou direto na terceira posição na Billboard 200 e em primeiro nos charts de rock e música alternativa. Apesar de só contar com um único videoclipe até agora e com uma pequena turnê nos Estados Unidos, Fiona Apple conseguiu mais uma vez provar que mesmo com todos os seus problemas pessoais, e mesmo com sua inércia e descaso em promover seu trabalho, continua sendo uma das compositoras e cantoras mais autênticas e viscerais da atualidade.
Ps.: Como o post acabou ficando muito grande, resolvi dividi-lo em dois. Sendo assim na próxima publicação sobre as Angry Musician Girls falarei sobre Sinéad O’Connor, Garbage, Hole e PJ Harvey. Então controlem esse rancor que logo logo tem mais sobre meninas raivosas!



