Todos os homens (e mulheres) são criados iguais.
Bem, se você está acompanhando a narrativa da civilização desde os seus primórdios, não deve se surpreender com o fato de que uma vez que você seja: homem, livre, caucasiano, casado, com posses materiais, e com direito a voto… Os estranhos são os outr@s!
Talvez pela vontade de nos sentirmos amad@s e aceit@s, inerente a condição humana, acabamos por eleger aqueles que são mais “iguais” a nós para o convívio próximo. Assim, não lidamos com valores que divirjam/contestem os nossos. E isso pode realmente dificultar a criação de laços afetivos, já que conforto parece ser mais facilmente encontrado numa redoma de espelhos.
O interessante disso é que não parece ser suficiente manter a distância de tudo que ameaça os nossos valores individuais. É de suma importância encará-los como “O MELHOR“. Infelizmente, esse conceito de “melhor” se isola da noção de que tudo remonta ao contexto histórico/cultural/social ao qual cada indivíduo é exposto durante a sua vida. Em outras palavras: quando conceituamos algo como “melhor”, não deveriamos nos esquecer que só o fazemos a partir da experiência de vida de cada um de nós. Dificilmente, tendo nascido em outro lugar do mundo, com outra religião ou regime político dominante, pensaríamos da mesma forma ou atribuiríamos os mesmos valores positivos às coisas que nos são prezadas na presente conjectura. Simples, não?
Nem tanto. Graças a onipresença de um estilo de vida exposto nas mais diversas produções culturais do ocidente, encontramo-nos todos reféns de pouquíssimos referenciais que fujam do modelo social e culturalmente estabelecidos.
Não, eu não estou aqui fazendo papel de vítima das grandes corporações comunicacionais do nosso país e das instituições culturais que as favorecem. Desde a invenção da internet que ninguém deve usar esse argumento, até porque antes dela já existia toda uma literatura de contestação dos padrões estabelecidos. O que quero dizer é que, talvez numa utopia, todos deveríamos estar cientes das razões que nos levam a considerar algo mais adequado ao nosso modo de pensar, e não simplesmente aceitarmos que algo é melhor que o outro e fim de papo.
Compreender que algo que funciona pra mim pode não funcionar com outra pessoa é chave para a diminuição de conflitos em diferentes níveis. No entanto, ao interpretarmos os exemplos divulgados pela mídia como um destino comum a TODOS estamos contribuindo para a opressão do “outro”. Numa cultura que almeja o lucro através da massa, tudo que foge a ela se encontra à margem e interditado, mas isso não quer dizer que a convivência não seja possível. Quem está de fora é mais ciente do que aqueles que gozam do conforto do centro, mas isso só faz com que a promoção de discursos que fujam a regra seja responsabilidade de todos.
A luta, então, deveria ter como princípio a conscientização de cada indivíduo descontente de que somos livres para escolher nossos caminhos. Pois se nenhuma das opções disponíveis ao nosso redor nos satisfaz, temos o dever de investigar alternativas (individuais ou não) a elas… Ou então simplesmente aceitamos o que nos é imposto, sem perder de vista que de ambas as formas haverá consequências. Até quem compartilha da ideologia hegemônica pode e é constantemente oprimido por ela.
Em suma, acho complicado associar uma auto-estima saudável a aceitação de um modelo soberano. Primeiro, porque é muito limitador se adequar a um ideal produzido em dado contexto histórico/sócio-cultural. Segundo, porque aceitar algo como um ideal, alheio a si, requer uma rigidez de comportamento surreal. E por fim, por mais diferente que alguém possa ser de nós, considerá-lo inferior ou repulsivo implica em pensar o mesmo de nós, sempre que tropeçamos no caminho escolhido como MELHOR.















