Morre Gore Vidal, autor, dramaturgo, ensaísta, guionista e ativista político dos Estados Unidos. Sua morte, de pneumonia, na noite de terça-feira, aos 86 anos, seria descrita por ele mesmo como natural. Foi candidato a cargos políticos duas vezes e teve uma longa carreira como observador e crítico da vida política americana. Ele se auto descrevia como uma pedra de gelo: “Por trás dessa carcaça fria, se você quebrar o gelo, vai encontrar água gelada.” . Seu corpo pode ter ficado gelado, de fato, porém, não menos que o vazio deixado por ele. Vidal “esquentava os ânimos” ao seu redor ao abrir a boca ou lançar um livro, como aconteceu desde seu primeiro romance, “Williwaw” (1946), publicado quando o autor completava 21 anos, e que descrevia de maneira delatora as relações nada amistosas entre os tripulantes de um navio, comandado com mão de ferro por um sujeito chamado Evans, durante os dias de Vidal como subtenente num navio de suprimentos durante a 2.ª Guerra.
Insubordinado, transgressor e à frente de seu tempo, não demoraria dois anos para lançar seu segundo romance, o polêmico “A Cidade e o Pilar” (1948), dedicado ao colega de escola e ex-amante, Jimmie Trimble, atleta morto prematuramente durante a guerra, lutando em Iwo Jima, foi um escândalo de proporções estratosféricas entre a crítica e o público por ser um dos primeiros romances estadunidenses a retratar a homossexualidade de maneira direta,natural (como parecia ser sua maneira de lidar com o mundo e as coisas) e sem ambiguidades. Esse escândalo colocou Vidal na lista negra da imprensa (o jornal “New York Times” deixou de publicar resenhas de seus livros), mesmo sendo filho da aristocracia estadunidense, descendente de senadores (o avô,Thomas Pryor Gore) e de pioneiros da aviação (o pai, Eugene Luther Vidal). Teve de amargar algum tempo escrevendo programas de televisão sob pseudônimos, como Katherine Everard, Cameron Kay e Edgar Box.
Com 25 romances, dois livros de memórias e vários volumes de ensaios e estudos sobre figuras históricas em sua bagagem, o escritor também tentou fazer uso da herança política de seus ancestrais, mas seu maior êxito foi na literatura. Ignorando protocolos, ele era uma no sapato de políticos conservadores,acusando Bush,poe exemplo, de ter conspirado com os terroristas para derrubar as torres gêmeas em 2001. Escandalizou ao exibir seu retrato do presidente Lincoln, descrevendo-o como um sifilítico hipócrita que pouco ligava para escravos.
Sua interpretação da vida de Cristo em “Ao Vivo do Calvário”, em que mistura os Evangelhos com estrelas de Hollywood e pastores de tabernáculos mecânicos,quase lhe rendeu uma excomunhão, do Vaticano.
Sua ambição literária era proporcional ao seu ego. Meio-irmão de Jackie Kennedy e parente de Al Gore, aprendeu desde muito cedo aprendeu na Academia Militar a ver o mundo dividido entre comandantes e comandados, preferindo o primeiro papel, mesmo trocando a carreira militar por um lugar menos confortável no mundo literário, onde colecionou mais desafetos que amigos. Vidal sempre incomodou por seu estilo, sem travas ou papas na língua.
Vidal foi criado pelo avô, em West Point, Nova York, e detestava a mãe alcoólatra, Nina Gore. Seu mundo essencialmente masculino, deu destaque a uma das raras personagens femininas de suas obras ficcionais, um transexual, que no livro “Myra Breckerindge” (1968), estupra um garanhão de Hollywood com um dildo e, após um acidente e uma tentativa frustrada de mudar de sexo, torna-se eunuco,em contradição à vida hipersexuada de Vidal, que se orgulhava de ter transado com toda a Beat Generation, incluindo Jack Kerouac.
Aclamado roteirista de cinema, credita o filme “De Repente, no Último Verão”, baseado na peça de seu amigo Tennessee Williams, dando leveza a um tema incômodo e fora do cotidiano: o do canibalismo ligado ao estupro de um gay.
Algumas de suas citações:
“Nada mais grotesco do que dois americanos
se congratulando por ser heterossexuais.
Isto só acontece nos Estados Unidos.
Nunca vi dois italianos se congratulando
por gostar de mulheres.
Para eles, isso é normal.”
“Estilo é saber quem você é,
o que quer dizer
e não dar a mínima.”
“As contradições nos definem
e ao mesmo tempo nos desmantelam.”

