Eugene Luther Gore Vidal: 3 de outubro de 1925 – 31 de julho de 2012

Morre Gore Vidal, autor, dramaturgo, ensaísta, guionista e ativista político dos Estados Unidos. Sua morte, de pneumonia, na noite de terça-feira, aos 86 anos, seria descrita por ele mesmo como natural. Foi candidato a cargos políticos duas vezes e teve uma longa carreira como observador e crítico da vida política americana.  Ele se auto descrevia como uma pedra de gelo: “Por trás dessa carcaça fria, se você quebrar o gelo, vai encontrar água gelada.” . Seu corpo pode ter ficado gelado, de fato, porém, não menos que o vazio deixado por ele. Vidal “esquentava os ânimos” ao seu redor ao abrir a boca ou lançar um livro, como aconteceu desde seu primeiro romance, Williwaw” (1946), publicado quando o autor completava 21 anos, e que  descrevia de maneira delatora as relações nada amistosas entre os tripulantes de um navio, comandado com mão de ferro por um sujeito chamado Evans, durante os dias de Vidal como subtenente num navio de suprimentos durante a 2.ª Guerra.

Insubordinado, transgressor e à frente de seu tempo, não demoraria dois anos para lançar seu segundo romance, o polêmico “A Cidade e o Pilar” (1948), dedicado ao colega de escola e ex-amante, Jimmie Trimble, atleta morto prematuramente durante a guerra, lutando em Iwo Jima, foi um escândalo de proporções estratosféricas entre a crítica e o público por ser um dos primeiros romances estadunidenses a retratar a homossexualidade de maneira direta,natural (como parecia ser sua maneira de lidar com o mundo e as coisas) e sem ambiguidades. Esse escândalo colocou  Vidal na lista negra da imprensa (o jornal “New York Times” deixou de publicar resenhas de seus livros), mesmo sendo filho da aristocracia estadunidense, descendente de senadores (o avô,Thomas Pryor Gore) e de pioneiros da aviação (o pai, Eugene Luther Vidal). Teve de amargar algum tempo escrevendo programas de televisão sob pseudônimos, como Katherine Everard, Cameron Kay e Edgar Box.

Com 25 romances, dois livros de memórias e vários volumes de ensaios e estudos sobre figuras históricas em sua bagagem, o escritor também tentou fazer uso da herança política de seus ancestrais, mas seu maior êxito foi na literatura. Ignorando protocolos, ele era uma no sapato de políticos conservadores,acusando Bush,poe exemplo, de ter conspirado com os terroristas para derrubar as torres gêmeas em 2001. Escandalizou ao exibir seu retrato do presidente Lincoln, descrevendo-o como um sifilítico hipócrita que pouco ligava para escravos.

Sua interpretação da vida de Cristo em Ao Vivo do Calvário”, em que mistura os Evangelhos com estrelas de Hollywood e pastores de tabernáculos mecânicos,quase lhe rendeu uma excomunhão, do Vaticano.

Sua ambição literária era proporcional ao seu ego. Meio-irmão de Jackie Kennedy e parente de Al Gore, aprendeu desde muito cedo aprendeu na Academia Militar a ver o mundo dividido entre comandantes e comandados, preferindo o primeiro papel, mesmo trocando a carreira militar por um lugar menos confortável no mundo literário, onde colecionou mais desafetos que amigos. Vidal sempre incomodou por seu estilo, sem travas ou papas na língua.

Vidal foi criado pelo avô, em West Point, Nova York, e detestava a mãe alcoólatra, Nina Gore. Seu mundo essencialmente masculino, deu destaque a uma das raras personagens femininas de suas obras ficcionais, um transexual, que no livro “Myra Breckerindge” (1968), estupra um garanhão de Hollywood com um dildo e, após um acidente e uma tentativa frustrada de mudar de sexo, torna-se eunuco,em contradição à vida hipersexuada de  Vidal, que se orgulhava de ter transado com toda a Beat Generation, incluindo Jack Kerouac.

Aclamado roteirista de cinema, credita o filme “De Repente, no Último Verão”, baseado na peça de seu amigo Tennessee Williams, dando leveza a um tema incômodo e fora do cotidiano: o do canibalismo ligado ao estupro de um gay.

Algumas de suas citações:

“Nada mais grotesco do que dois americanos

se congratulando por ser heterossexuais.

Isto só acontece nos Estados Unidos.

Nunca vi dois italianos se congratulando

por gostar de mulheres.

Para eles, isso é normal.”

“Estilo é saber quem você é,

o que quer dizer

e não dar a mínima.”

“As contradições nos definem

e ao mesmo tempo nos desmantelam.”

  • http://felipegoebel.wordpress.com Fe Goebel

    To realmente triste. Como pesquisador do Movimento Gay conhecia ele de nome, mas só agora que ele realmente começou a se fazer presente na minha vida. Terminei de ler A Cidade e o Pilar e sério, acho que devia ser livro de cabeceira de todos os gays preocupados minimamente em questionar a normatização sexual. Além de claro ser um puta livro, em questão de escrita, crítica a sociedade americana da década de 40 e falar de forma franca sobre relações que fracassam. Mas é como a mensagem deixada por A Cidade e o Pilar: pessoas se vão de uma forma ou de outra. No caso, ele só se foi fisicamente, mas seu legado irá continuar para sempre… Seus livros, sua figura politica dentro do movimento gay, seus comentários… Enfim, bem vindo em definitivo a minha vida Gore Vidal!

    • rochesterhalfeld

      Infelizmente, a maior parte das pessoas, homossexuais ou não, não procura CONHECER o mundo ao seu redor, e se contenta com as informações do senso comum, repudiando as do senso “incomum”. Não tenho nada contra divas, pegação, pinta…mas parece que ninguém se informa sobre nada. E o que mais me irrita, na verdade, são os gays que não se posicionam (não por isso) e jogam pedra em todos os que dão a cara a tapa, ficando em uma falsa zona de segurança, posando de héteros e usufruindo os direitos adquiridos por esses mesmos gays que eles fazem questão de ignorar.