A Pequena Sereia, Guerra Fria, Muro de Berlim?

A Pequena Sereia é um Conto de Fadas publicado em 1837, escrito por Hans Christian Andersen. Hoje em dia é uma das histórias mais conhecidas popularmente devido a suas diversas adaptações, sendo a mais famosa, dos Estúdios Disney, lançada em 1989.

As teorias da Psicanálise envolvendo o conto são muitas, todas ligadas com a história de vida de seu autor. Andersen foi tido como bissexual por alguns de seus biógrafos, e teria sofrido um amor não correspondido por um jovem belo e rico, da família que o acolhera e pagara parte de seus estudos. Além disso, ele foi ator por um curto período de tempo, antes de sua voz mudar e impedi-lo de interpretar certos papéis. Duas referências claras na história original de A Pequena Sereia, onde a mocinha perde sua voz (não como na Disney, mas com a Bruxa do Mar literalmente cortando-lhe a língua) e não é correspondida pelo príncipe. Além de pertencer a outro mundo, como no caso de Andersen, já que acredita-se que o jovem por quem ele se apaixonou era heterossexual. No fim, a jovem sereia não fica com o amado e nem sobrevive. Sim, é uma história triste e melancólica, como costumavam ser os contos do escritor dinamarquês.

Mas é claro que a Disney não poderia deixar que a Sereiazinha morresse ou acabasse sem um final feliz. Por quê? Só pelo motivo de que os Contos de Fadas têm de necessariamente ter um final feliz? Ou será que os produtores queriam passar outra mensagem? Uma coisa que poucas pessoas sabem é que Walt Disney começara a trabalhar numa versão de A Pequena Sereia ainda no inicio de sua carreira, mas que foi engavetada por ser muito obscura e ser um período de Guerra. E é justamente aí em que o filme que conhecemos Ariel é produzido: durante um período de Guerra.

A Guerra Fria foi uma batalha ideológica entre os Estados Unidos, defendendo o Capitalismo, e União Soviética, defendendo uma forma de Socialismo. A Alemanha se encontrava dividida em duas partes, historiadores nomearam o mundo de Mundo Bipolar nessa época, e o que se buscava era justamente um Mundo Unificado. Melhor ainda se pudesse ser pelas mãos norte-americanas, pra que eles tomassem conta de tudo e todos no caso de o mundo inteiro – ou pelo menos a maior parte dele – se tornar Capitalista.

Em A Pequena Sereia somos apresentados a jovem Ariel, sétima filha do Rei dos Mares, o Rei Tritão. Este, um não simpatizante declarado do mundo da superfície, ou seja, o nosso mundo. Enquanto os humanos conheciam o povo marinho apenas por lendas, onde as sereias arrastavam os marujos para o mar com suas belas vozes, o povo do mar sabia efetivamente da existência dos humanos. Portanto, para eles o mundo era também bipolar, com sereias “comendo marujos” e humanos temendo o desconhecido. De qualquer forma, Ariel adorava o mundo da superfície (em inglês a expressão usada é world above) e acaba se apaixonando por um príncipe que resgata de um naufrágio. A história decorre de forma similar a original: ela vai até a Bruxa do Mar e faz um trato para se tornar humana e poder ficar com o príncipe Eric. Ursula realiza seu desejo em troca da bela voz da sereia, e a adverte de que só conseguindo um verdadeiro beijo de amor do príncipe, no prazo de três dias, Ariel ficará humana para sempre. Se falhar, ela volta a ser sereia e se torna propriedade da bruxa.

Sem a voz, Ariel encontra dificuldades. Para atrapalhar mais ainda, a Bruxa do Mar  transforma-se numa bela jovem e, usando a voz de Ariel, enfeitiça Eric para que ele se apaixone por ela (invenção da Disney, já que na história original a Bruxa tem apenas uma aparição e não é considerada uma vilã, mas apenas uma ferramenta usada pela sereia para conseguir o que queria). Com a ajuda dos amigos de Ariel, Linguado, Sebastião e Sabidão, e alguns puxões de cabelo dados pela própria sereia (considerada por muitos a primeira princesa Disney com alguma personalidade ativa de fato), Eric consegue matar uma versão gigante de Ursula, e o Rei Tritão transforma a filha em humana, mudando também sua posição sobre nós. No final, com o casamento da filha do Mar e do filho da Terra, há uma união entre os dois mundos.

Dessa forma, o momento histórico do lançamento do filme, 1989, com o final da Guerra Fria e dois anos antes da derrubada do Muro de Berlim, foi no mínimo sugestivo. A união entre os povos da terra e do mar poderia representar, então, a unificação do mundo em um só: obviamente com o capitalismo norte-americano que a Disney tanto representa como final feliz. É o ápice deles até então, pois Ariel compartilharia seu final feliz com o resto do mundo, terminando com as guerras e as desavenças.

Um fato curioso é que na sequência do filme, A Pequena Sereia II – Retorno ao Mar, a filha de Eric e Ariel, Melody é quase sequestrada pela irmã de Ursula, a bruxa Morgana, o que faz com que Ariel mande construir um muro separando o mar do castelo em que vive. No fim do filme Melody pede a seu avô, o Rei Tritão, que destrua o muro, podendo essa ser uma referência à queda do Muro de Berlim e ao que a Disney esperava que ocorresse na época em que o Clássico Original foi sido produzido.

Assim, a Fábrica de Sonhos (e dinheiro), usa a realidade como referência mais uma vez, como foi em Aristogatas. E essa é outra leitura para A Pequena Sereia.

Que indelicadeza, Gina! Polêmica humorística no Facebook!

_Gina, como faço pra conseguir uma boa polêmica no Face?

_Cata tudo no Twitter e corre pro abraço, ué!

Que internet é uma terra sem lei, todo mundo sabe. Mas agora, parece que estamos às portas de uma batalha por direitos autorais, pelo menos no tocante às páginas de humor. Nesse mês, a página Gina Indelicada virou fenômeno no Facebook. Com respostas sarcásticas a todo tipo de pergunta, a célebre musa dos palitos passou de um milhão de seguidores, quase rendeu um processo a seu criador, o ex-candidato a Colírio Capricho Rick Lopes, e por fim, pode render é um bom dinheiro.

Mas quanto maior a altura, maior a queda. E uma nova página, Gina, kibadora indelicada, já chegou a 10.000 fãs em menos de 4 horas. O obejtivo: Provar que as piadas da Gina não passam de tweets roubados por aí.

E está criada a confusão. De um lado, gente defendendo a “Gina” original, o inevitável argumento de que isso tudo é inveja e, do outro, um povo #XATIADO com a farsa, falando em plágio e descurtindo a página. Será que isso vai render? Será que finalmente vai pintar uma discussão séria sobre propriedade intelectual na web?

Por essas e outras que prefiro a Saori. Deosa apenax.

Machismo sem fronteiras…

Umas da características mais marcantes da dominação irracional dos homens sobre as mulheres é seu grau de universalidade. Seja na Europa, na África, na América Latina ou em qualquer outro ponto do globo, podemos encontrar atitudes misóginas e de opressão pautadas em um claro desprezo e temor por tudo que esteja intrinsecamente ligado a feminilidade.

O fato é que mulheres historicamente são perseguidas, humilhadas e obrigadas a se submeterem ao universo-padrão de dominação masculina heteronormativa (para usar o termo da Teoria Queer), de uma forma ou de outra, queiram ou não… Como forma de expressão chave do patriarcado, o machismo e a dominação sobre a mulher remonta aos tempos mais antigos. O discurso machista atual, porém, muitas vezes se mistura com o senso comum e passa muitas vezes despercebido do olhar menos atento e criterioso.

No Ocidente, de fato, as mulheres já obtiveram ganhos mais do que reais no seu direito de serem independentes e respeitadas em sua condição como ser humano, em qualquer esfera social. Das sufragistas da década de 30, passando pela Revolução Sexual pós Segunda Guerra, seguida pelos Movimentos Feministas da década de 60 e chegando ao novo Feminismo atual (como A Marcha das Vadias) e o questionamento das regras e papéis de gênero da Teoria Queer, as mulheres mostram que sabem se afirmar e se organizar na luta contra o machismo.

É com grande medo e asco que, apesar disso tudo, podemos constatar que o machismo perdura ainda na sociedade mundial, e que preserva sua característica de discurso universal, onde por mais diversa que seja a cultura de um país o discurso irá manter sua base de argumentação (ou falta dela): o medo e o desprezo infinito transformado em violência declarada ou não contra as mulheres. No Brasil, por exemplo, esse discurso é perpetuado politicamente, de forma bem clara, por uma Bancada Cristã no Senado, extremamente conservadora e com uma influência absurda na política, e que boicota e barra a luta por direitos sociais mais amplos (como a legalização do aborto e o casamento homossexual) e que alimenta e mantém sempre presente e ativo o status quo do discurso misógino de desvalorização da mulher.

É chocante observar que o dito e enaltecido “país onde tudo é possível” sofra problemas quase que idênticos ao brasileiro. Há alguns dias atrás, nos Estados Unidos, o candidato ao Senado, pelo Partido Republicano, Tod Akin tentou justificar sua absurda oposição ao aborto, em qualquer circunstância. Quando perguntado sobre o aborto em caso de estupro o político republicano soltou que pelo que ele entende de medicina (que deve ser nada!), casos de gravidez após estupros são muito raros. Completou ainda que: “Se é um estupro legítimo, o corpo feminino tem maneiras de tentar fechar essa coisa toda. Mas vamos supor que talvez não funcionou ou algo assim. Eu acho que deveria haver alguma punição, mas a punição deveria ser sobre o estuprador.” Dessa forma conclui-se que permitindo e legalizando o aborto, a mulher estaria sendo punida por ter sido estuprada? Que lógica é essa? Claramente a lógica que norteia o pensamento e o discurso de Todd Akin perpassa uma percepção machista e extremamente patriarcal da condição feminina. Continuar lendo

O universo imagético de Alexandre Sequeira

Por suas próprias palavras, Alexandre Sequeira é formado em arquitetura pela Universidade Federal do Pará-UFPa em 1984, é professor do Instituto de Ciências da Arte da mesma universidade, Especialista em Semiótica e Artes Visuais e Mestre em Arte e Tecnologia pela Universidade Federal de Minas Gerais-UFGM.

Artista plástico e fotógrafo, desenvolve trabalhos que utilizam a fotografia como vetor de interação e troca de impressões com indivíduos ou grupos. Um de seus trabalhos mais famosos se deu em Nazaré do Mocajuba, a 150 quilômetros de Belém com cerca de 200 habitantes, que nunca haviam sido fotografados e tampouco tinham luz elétrica.

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