Quem é uma diva? Antigamente, as divas eram cantoras singulares como Maria Callas, sofridas como Edith Piaf e Billie Holiday, com histórias trágicas cantadas com emoção, como fazia Judy Garland no auge do alcoolismo.
A relação com gays é simbiótica. Na figura da mulher que sofre, da estrela que cai e que é consumida pelo sucesso ou por demônios interiores, homossexuais de todos os gêneros encontram um espelho. Um canal para expurgar as próprias dores, devolvendo à essas mulheres o amor que elas pareciam buscar. Hoje em dia, é um pouco mais fácil. Ninguém precisa morrer para ser chamada de Diva, basta dançar seminua com um ventilador nos cabelos. A identificação continua, e que bom que os gays menos reprimidos de hoje não precisam da dor para se espelhar, mas talvez a palavra esteja vulgarizada.
Amy Winehouse, 27 anos, estourou com sua estética vintage, voz poderosa e música pungente. Fosse com lágrimas se secando sozinhas, a recusa de ir para a reabilitação ou avisando que não era boazinha, suas canções revisitavam os temas eternos das verdadeiras divas. Nada de dançar até o mundo acabar. Com Amy, se morria cem vezes.
No nosso mundinho, tantas vezes anestesiado pelos finais felizes do cinema, acho que todo mundo pensava que Amy podia dar a volta por cima, até hoje, quando a notícia da sua morte varre o mundo.
Vai começar o ato final. A cerimônia de morte que nosso mundo pop sempre repete. A artista maldita, motivo de riso e pena por cair bêbada demais para cantar ao vivo, será incensada em livros e revistas. As vendas de seus CDs e DVDs vão estourar, sua porta será coberta de flores e suas canções tocarão à exaustão. É assim que o “monstro da fama” cantado por outra neo-diva consome seus artistas em sacrifício. É no espetáculo da queda que o sucesso se mede, e quando finalmente a morte chega, o mesmo público que ria ao apontar dedos, tem sua redenção na comoção da perda. É um circo.
No fim das contas, todo mundo sabia que ia ser assim. O que tínhamos era esperança. Mas no fim, Amy se manteve fiel a seu estilo. Morreu jovem, no ápice de uma jornada auto-destrutiva, onde as dores profundas terminaram por consumir o todo. Eles tentaram fazê-la ir pra reabilitação, mas ela disse no, no, no… Morreu uma verdadeira diva.