Mais que um Lolita para meninas

CarolHigsmith

Minha edição de Carol, da L&PM Pocket, tem pelo menos 07 anos.

Carol, romance de Patrícia Highsmith, publicado em 1953, sob o pseudônimo de Claire Morgan e que inicialmente tinha por título The price of salt, traz em sua capa (edição da L&PM) a seguinte inscrição: “O romance que inspirou Lolita de Nabokov”. Porém, as únicas similaridades entre as duas obras são, além do nome de mulher em diminutivo, a relação amorosa entre uma pessoa mais velha com uma mais nova e uma viagem por entre as estradas estadunidenses.

Estante

A história narra o encontro e o desenrolar do envolvimento amoroso entre Carol Aird e Therese Belivet. Aquela, uma dona de casa suburbana, casada, com uma filha pequena, enquanto a outra uma mulher de dezenove anos, que tem um namorado com o qual não se sente a vontade sexualmente e trabalha como atendente em uma loja de departamentos, em Nova York.

É justamente no trabalho de Therese que o encontro entre as duas mulheres acontece, quando, em época natalina, Carol está escolhendo um presente para sua filha. Após a compra, Therese liga para Carol, um encontro é marcado e, a partir daí, estabelece-se uma constante aproximação entre ambas.

Durante boa parte da narrativa a relação entre ambas é muito mais de cuidado, principalmente por parte Carol, que nos leva quase a pensar em um tratamento de mãe para com filha. A insegurança, como de se esperar, fica por conta de Therese.

Com o passar do tempo e a necessidade de ambas estarem próximas e viverem, de fato, o que sentem, decidem viajar de carro, se hospedando em hotéis de muitas cidades pequenas. E, é em um desses hotéis que acontece a primeira vez entre ambas, de modo bem delicado.

Porém a viagem não é tão tranquila como esperam.

Elas são seguidas por um detetive particular, que fora contrato pelo ex-esposo de Carol e que pretende não permitir que ela continue a ver a filha, já que os atos dela são ‘condenáveis’.

Interessante ver que, Therese não é a primeira relação homoafetiva de Carol, que já teve que abdicar, em outro momento de sua vida, de um relacionamento em nome da família e das aparências.

Contudo, isso não acontecerá novamente, embora haja um pequeno afastamento entre Therese e Carol, a fim de que as coisas se resolvam para Carol, de que Therese amadureça, elas permanecem juntas.

Assim, mais que romance sexual, como o de Nabokov, que explorou os sentimentos e os desejos de um homem branco de meia-idade por uma menina, Carol, vai de encontro ao afetivo, a construção de um relacionamento e de como a vida passa a ser organizada em torno dele, tornando-se assim, o que eu percebo como um romance “delicado”, por justamente conseguir trabalhar esse desenvolvimento de modo bem sólido.

HIGHSMITH, Patrícia. Carol. Tradução de Roberto Grey. Porto Alegre: L&PM, 2006.

Rodriguinho, os G0ys, e a “verdade” sobre nosso projeto de poder!

bbt7Amor, confiança, respeito, discrição e masculinidade. Essas são as palavras de ordem dos G0ys – já falei deles aqui antes – que estão sendo tão comentados nessa semana, agora que a mídia mainstream os descobriu. Eles se definem como homens que sentem atração por outros homens, com contatos físicos que vão até o limite da penetração anal – “degradante”, segundo eles – mas que não são gays.

Como toda novidade, causam estranheza. Seriam apenas gays que não se aceitam? Homens que buscam realizar e legitimar os laços afetivos que a construção frágil da masculinidade nos obriga a romper? Ou seriam só mais uma manifestação da pluralidade sexual/afetiva do ser humano? É preciso penetrar ou ser penetrado para ser gay?

Na verdade, esse não é o assunto desse post. O que eu quero discutir aqui é coluna de Rodrigo Constantinosempre ele – na revista VEJA – sempre ela – que falou sobre os g0ys.

No texto, o colunista usa de sua “elegância habitual” para dizer que os g0ys seriam “bichas covardes loucas para engatar a ré” e uma “bizarrice”. Usa-os como exemplo para cantar as benesses da moderação e da contenção de desejos, frisando que “só está apto a ser livre quem consegue controlar seu apetites”, e denuncia o “embaraço” dos progressistas, que de tanto lutarem por liberdade e libertinagem, se veem acuados por casos assim. Para apimentar a discussão, recorre ao sensacionalismo de insinuar que o despudor liberaria sexo nas ruas ou incesto, e questiona as reações da comunidade gay, perguntando se nossa luta pela diversidade não aceita incluir os g0ys por medo de perder o “monopólio da causa gay”.

Ah, Rodrigo… Será possível que o mundo é, para você, um tabuleiro onde só existem duas forças opostas? O bem e o mal, o He-Man e o Esqueleto? Deixa eu explicar: Não existe preconceito contra manifestações sexuais diversas dentro da comunidade gay.

Se há alguma confusão sobre os g0ys, é apenas por se tratar de uma nomenclatura nova, que ainda está se definindo. É natural que exista rejeição, polarização de opiniões e debate. É assim que novos entendimentos são construídos. O nome é novo, mas a prática não. De “enrustidos” a HSH, homossexuais/afetivos que não desejam se definir como gays, sempre existiram. Histórias de homens casados com mulheres, que se definem afetiva, sexual e culturalmente como heterossexuais, mas que mantém contatos sexuais com outros homens, abundam! Dada a homofobia e o estigma social associados à homossexualidade, não é de espantar. E isso só é problema quando hierarquiza posições.

É evidente que o discurso dos g0ys é problemático, pois ainda é carregado de machismo. Há franco repúdio ao movimento gay como entidade política legítima, e uma ideia bem definida de que “certa prática” nos denigre como homens. Esse é o problema.

Agora, se esses homens querem fazer qualquer coisa com seus corpos e encontraram parceiros adultos e dispostos a fazer ou não fazer o mesmo, que sejam muito felizes! Desde que não propaguem ideais homofóbicos e nem vendam sua filosofia como melhor, entendendo apenas que se trata de mais uma dentre tantas manifestações de identidade/sexualidade, eles que usem – ou não – seus rabos como preferirem!

É isso, Rodrigo. Não há confusão. Nós queremos entender e abraçar as diferenças, educando-as para que sirvam ao ideal de um mundo mais tolerante para todos, e não apenas para os que se encaixam no modelo “aceitável”. Ninguém está se sentindo ameaçado em seu tirânico projeto de poder e nem foi desmascarado pelos seus argumentos tão fabulosos. Aliás, ainda falta tanto para a erradicação do machismo que é seguro afirmar que não viveremos para ver isso, o que logicamente não significa que não possamos contribuir com o processo. Relaxe. As coisas são mais simples. O Castelo de Grayskull continua seguro.

Eu, Mamãe e os Meninos: A verdadeira descoberta

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Terminou ontem o Festival Varilux de Cinema Francês 2014 , mas a boa notícia é que ainda dá tempo de assistir a uns bons filmes até domingo. A comédia escolhida para nossa coluna de cinema fala sobre descoberta e você irá se fascinar pela vida do indeciso e confuso Guillaume.

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Vencedor do César 2014, considerado o Oscar francês, “Eu, Mamãe e os Meninos” é um filme autobiográfico do ator – e também diretor – Guillaume Gallienne. O ator contará em primeira pessoa, para um grande teatro, sua própria história e os conflitos de identidade sexual que viveu durante sua infância e adolescência. O título do longa faz referência à primeira lembrança que tem da mãe – também interpretada por ele – quando tinha 4 ou 5 anos e ela chamava seus dois irmãos e ele, para o jantar dizendo : “Meninos e Guillaume, o almoço está na mesa!” .

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O que fazer quando todos ditam quem você é? Esta é a pergunta que paira sobre Guillaume Gallienne

Ainda sem data prevista para estrear no Brasil, a vida de Guillaume é capaz de arrancar boas risadas de todos. O prêmio de melhor ator também foi merecido, o ator possui talento nato e sua interpretação tanto no palco como no cinema é de impressionar.

Talvez seja possível traçar uma conexão ao que Paulo Gustavo fez com “Minha Mãe é Uma Peça” nesse sentido. Apesar de ambos os filmes serem adaptações do teatro, as produções são impecáveis, coisa rara de se acontecer quando se transporta a quarta parede às telonas. Tal como ocorreu no Brasil, tanto a peça como o filme foram sucessos de bilheteria, rendendo entretenimento de primeira através de um monólogo que ganha vida e corpo nas salas de cinema.

Uma das coisas mais bacanas é que mesmo o humor não ocorrendo de maneira depreciativa, ele é  bom, divertido e sem qualquer tipo de provocação ou bandeira, ainda que em algumas frases da tia do protagonista isto fique claro. Esse tom de desabafo e conversa tornam o longa ainda mais agradável, você sente que a personagem está conversando diretamente com você. E a mãe de Guillaume é cômica, mas ao mesmo tempo é uma figura forte, mãe de três filhos homens e uma esposa dedicada de um marido bem machista.

O jovem Guillaume tem sua mãe como exemplo a ser seguido em todos os aspectos.

O jovem Guillaume tem sua mãe como exemplo a ser seguido em todos os aspectos.

O protagonista ama o universo feminino e faz de tudo para ficar cada vez mais inserido nele, sua mãe é um modelo de educação, bons costumes e fineza a serem seguidos, e ele não deixa escapar nenhum detalhe, o que traz consequências, que nem sempre são boas e o faz passar por inúmeros psiquiatras, outro ponto que faz todo a diferença!

E se você espera um final previsível, sinto informar que este não é mais um besteirol americano, então vale a pena assistir até o fim.

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Com certeza vocês irão se divertir. Apesar de prometida, mas sem data para estreia, como já havia dito, ainda há uma oportunidade para assisti-lo no Instituto Moreira Salles. Então corra para comprar seus ingressos e boa sessão.

Festival Varilux de Cinema Francês 2014
Local
: Instituto Moreira Salles
Endereço: Rua Marquês de São Vicente, 476 – Gávea, Rio de Janeiro – RJ, 22451-040
Dia e Horário: 19/04 às 20:00hs

Quer saber mais sobre filmes? Acompanhe nossa coluna A bonequinha viu toda quinta, aqui n’Os Entendidos. Não esqueça de curtir também a nossa fanpage!

Quem me passou AIDS?

culpadoDepois do choque inicial do diagnóstico e dos amigos entenderem que a minha morte não era tão iminente, uma série de perguntas ficaram martelando minha cabeça: Quem me passou AIDS? Quando foi que isso aconteceu? Faz alguma diferença se foi numa suruba hardcore ou com meu namorado? De quem é a culpa?

PositivoEu me fiz todas essas perguntas, mas cheguei a escutar algumas de outras pessoas também. Por que alguns amigos estavam preocupados com isso? Era só curiosidade ou queriam alguém para crucificar? E identificando esse alguém, o que eu deveria fazer?

Quando falamos em HIV/AIDS, são várias as “verdades” que a sabedoria popular nos conta. A maior parte delas, lamentavelmente, é puro preconceito. Campanhas como a “Fique Sabendo” existem porque a maioria dos novos casos de infecção acontece porque, devido ao estigma associado à doença e à pouca procura pelos testes e tratamentos, a maior parte dos infectados não sabe de sua condição. Isso é muito perigoso para o portador do vírus, que provavelmente só vai descobrir a doença quando ela tiver evoluído ativamente para AIDS, mas é ainda mais perigoso para seus parceiros soronegativos, que talvez se descuidem por acreditar que não há risco.

O HIV – ou qualquer outra DST – não é uma punição por uma conduta imoral. A maioria das pessoas que estão por aí infectando outras não faz nem ideia de que carrega o vírus, e todo mundo sabe que deve se proteger e usar camisinha. E já que é esse o quadro, eu posso culpar alguém?

Eu sei de quem foi a culpa e acho que todos que vivem com o HIV sabem também. A culpa é minha e de mais ninguém. O risco sempre existe. A minha infecção não foi causada intencionalmente por algum parceiro mau ou por um juiz divino que queria punir a minha luxúria. Ela é algo que eu poderia ter evitado tranquilamente, uma vez que não me faltavam informações e meios para tal. A procura de um bode expiatório seria apenas uma forma de negar a minha responsabilidade nisso, e como não serviria para me curar, de que adiantaria?

HIV/AIDS não é algo que ninguém deseje, mas é perfeitamente administrável. É exatamente por causa do meu tratamento que eu hoje tenho mais informações sobre a doença, o vírus e as formas de contágio. Graças aos remédios, eu sou virtualmente não infectante, mas tenho a certeza de que não vou infectar ninguém porque saber da minha condição é a minha maior proteção. O que “passa AIDS” é a falta de informação.

Eu não sabia que aquela pessoa, seja quem for, poderia me infectar. Quem me infectou não sabia que tinha HIV e que mudaria a minha vida dessa forma, numa transa, e foi exatamente por isso que mudou. Melhor dizendo, nós dois sabíamos. Sabíamos que deveríamos usar camisinha, já que QUALQUER pessoa pode ter o vírus, mas fomos burros, irresponsáveis, inconsequentes… Qualquer coisa do tipo. Sexo não é uma coisa ruim e nenhuma doença é um castigo pelo prazer.

Faça o teste, fique sabendo. Se o resultado for positivo, não adianta procurar um culpado. Se você apenas se proteger e, assim, cuidar também dos seus parceiros, não precisará ser “o culpado” na vida de ninguém…

Você pode fazer o teste e iniciar o tratamento em qualquer unidade pública de saúde. Pesquise por uma na sua área clicando aqui.

Leia Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos.