Chegamos aqui, mas para aonde vamos?

20centavos

“Estes movimentos entrarão para os livros de história do Brasil”, é o que bradam muitos pelas ruas e pelas redes sociais. Será mesmo?

Primeiramente quero deixar claro que não estou aqui contra as manifestações, ao contrário, tenho participado ativamente delas. O que proponho aqui é que nos manifestemos também com nossos cérebros, que o usemos para pensar aonde iremos, ou queremos, chegar.

Neste mês de junho, parte da população brasileira acordou. É inegável a expressão que os movimentos estão ganhando em todo Brasil, no mundo todo. Digo parte da população, já que, gostemos ou não, uma pequena parcela da nossa população sempre esteve tentando lutar por melhoras no Brasil. Não sou partidário, e sou contra bandeiras partidárias nessas manifestações que estão acontecendo no país, mas não podemos fechar os olhos para alguns partidos que lutam por uma reforma na política brasileira. Também não estou dizendo que as reformas que eles propõem são certas ou erradas.

O que podemos perceber claramente nas manifestações ao redor do país é que o povo brasileiro cansou de apanhar de seu governo. Isso é bom? Não, isso é ótimo. É “o gigante acordando”, mas acordando para quê? Continuar lendo

Quem tem medo da “Ditadura Gay”?

entendidosEles andam de salto alto e fazem “beijaço” e “saiaço” como atos políticos, brotam no seio da tradicional família brasileira – provavelmente por causa do estímulo lascivo das propagandas da Globo – e já tentaram fazer cartilha para corromper as crianças, além de estar na contramão do cristianismo. “Cuidado com a bicha, que a bicha te pega!”

DandoPintaSloganSerá mesmo que os valores da “família”, do machismo e da “moral e dos bons costumes” são os corretos? Por que para serem considerados tão maravilhosos, o mínimo que se espera é que sejam fortes, não é? E se são fortes, como é que um mero cidadão homossexual pode ameaçar tanto para gerar tanta histeria? Afinal, quem tem medo da “Ditadura Gay”?

O que se escuta por aí é: “esse assunto está demais”. Que os gays estariam fazendo um lobby midiático para forçar as pessoas mais do que a simplesmente aceitar, mas a engolir seu estilo “alternativo” de vida. É engraçado e ao mesmo tempo triste ouvir isso, porque instantaneamente se subverte a ordem do oprimido e do opressor. É covarde, porque a imagem criada é a maioria da população sendo oprimida por um grupo pequeno. Um “Davi e Golias” às avessas, onde o povo não percebe quem é o justo e o monstro.

Entrem em qualquer portal de notícias da internet e vejam as manchetes. Tem fofoca, futebol, curiosidades e o resumo das novelas, e uma ou duas matérias de tema gay. Em geral, são notícias sobre as últimas discussões políticas do assunto no Brasil e no mundo ou uma matéria sobre algum indivíduo num caso especial. Como internet é “terra sem lei”, chove preconceitos nos comentários, com várias pessoas reclamando que “toda hora esses gays querem aparecer” ou o célebre: “nada contra, mas se deem ao respeito”. Ué, porque o alarde? Você, cidadão de bem, foi OBRIGADO a clicar na matéria de interesse gay? Não tinha a última do Neymar pra matar seu tempo sem se indignar? Haha! Depois somos nós que temos mania de perseguição! Pior, somos acusados de nos fazer de vítimas, nos escondendo em palavrões como “homofobia”, “machismo” e “heteronormatividade”, às vezes até pelos próprios gays! Uma bizarrice que só comprova o sucesso milenar da doutrinação machista…

“Tô pra vê raça mais desunida que viado”. Chega a ser até poético ver como diversas igrejas se unem contra a “Ditadura Gay”, mesmo que no dia-a-dia se acusem de errar pelos caminhos do Senhor. Com gays isso não acontece, pois grande parte está mais preocupada com o Will.i.am produzindo o novo disco da Britney ou simplesmente em não ser associada com os “vergonhosos estereótipos” que nos ilustram por aí. É algo fácil de entender, porque no fim das contas o que todo mundo quer é ser aceito, ficar em paz, mas infelizmente isso não parece que vai acontecer agora. Política é negociação, é procurar meios-termos. Mas não podemos negociar direitos humanos ou “jogar lenha na fogueira”, por medo de continuar sofrendo bullying.

O que há pra temer na “Ditadura Gay”? Ninguém saiu por aí apedrejando os ônibus ou parou as empresas de telemarketing com uma greve generalizada. Ninguém saiu pelas cidades bolinando os caras pra ver se eles curtiam, forçou as pessoas a tatuar a Lady Gaga na bunda ou tacou fogo em igrejas. Nem uma simples Bíblia foi queimada! Até rimos juntos do que há de ridículo em nossa cultura, ao aplaudir a “bicha má” da novela. Essa ditadura é meio caída mesmo, já que não temos uma “Bancada Gay” no Congresso Nacional para gritar por nossos direitos e principalmente, nossos preconceitos. A maioria fala que a “Ditadura Gay” quer privilégios, que nós queremos colocar uma mordaça na liberdade de expressão e que somos contra a religião. Entretanto, no Congresso, o nosso “exército” é de um homem só, enquanto que nas igrejas nós som… Bem, é melhor deixar quieto!

Medo é uma das coisas mais fortes do mundo. É irracional, capaz de cegar. É por isso que provocá-lo é uma forma tão eficaz de manipulação. Quem fomenta o medo da “Ditadura Gay” pode até ganhar um ou mais votos dos conservadores. De repente, ganha até dízimo. Contudo, a maior vitória está além do arco-íris, pois nosso medo de rejeição é o que nos faz repetir esses discursos. Gritamos tanto por respeito que esquecemos que ele deveria ser universal. Tornamo-nos mais egoístas, advogando pelo lado adversário e nos contentando em sermos apenas “respeitáveis”, quando não há nada de respeitável em julgar os outros para tentar “livrar o seu”. No fim quem tem medo da “Ditadura Gay”, de verdade, somos nós. Esses “ditadores purpurinados” que não gritam, não quebram, não fazem protesto… Nem que esteja em jogo algo muito mais valioso que R$ 0,20.

Vamos aproveitar a onda de protestos e colocar nossa cara nas ruas, mostrando que a luta por igualdade também é urgente. O movimento do Orgulho, que lembramos no próximo dia 28, começou com uma pequena revolta que tomou o mundo e nos deu uma identidade. Agora temos a chance de mostrar que não somos nada a temer, que não precisamos de “cura”. O que é preciso é mostrar que não temos medo.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

Os 24 melhores tweets sobre a “Cura Gay”!

BolsaViada3Não é surpresa. Marco Feliciano, aquele lindo, aproveitou o foco da “primavera brasileira” para fazer passar a “cura gay” na Comissão de Direitos Humanos da câmara. Nem tudo está perdido, pois o projeto ainda precisa ser avaliado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e pela Comissão de Seguridade Social da Câmara, mas está aí outra prova de que não podemos relaxar e deixar de lembrar que o movimento nas ruas pede igualdade para todos.

O assunto está no topo dos trending topics do Twitter, e como às vezes o melhor é rir para não chorar, listamos 24 dos melhores tweets do momento:

 

 

 

 

A importância de ser insolente

Pior que negro racista ou gay homofóbico é classe média elitista

Há algumas semanas atrás tive a oportunidade de assistir o filme “Django”, do diretor Quentin Tarantino, que fez com que eu questionasse se seria capaz de me conformar à submissão. Pior, se absorveria tanto a opressão a ponto de reproduzi-la contra meus iguais como o personagem Stephen, da imagem acima, por terem lhe oferecido um lugar mais “conformadotável” na Casa Grande.

Claro que é possível argumentar de que a cultura se certificaria de que eu me sentisse menos humano ou digno a ponto disso, mas aí que nasce a minha dúvida. Sempre me insurgi contra o que me era culturalmente imposto. Fosse preferindo dança a futebol ou tendo certeza de que nem tudo que meus pais esperavam de mim era o melhor.

De qualquer forma sempre me identifiquei com personagens que se rebelam contra a própria realidade, e nas narrativas históricas sobre escravidão isso significa não ser apenas rebelde, mas também insolente. Insolente por me recusar a aceitar, calado e agradecidamente, o lugar que a sociedade tão “gentilmente” me cedeu. Continuar lendo